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Pandemia, quarentena e os desafios para o indivíduo com autismo

Com a chegada da pandemia da covid-19 no estado de Alagoas em março de 2020, vários desafios foram encontrados para o indivíduo autista com a mudança repentina da rotina.

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A pandemia da covid-19 chegou em Alagoas em março de 2020 e, no mesmo mês, foram tomadas medidas de prevenção para a não proliferação da doença, aderidas pelo governo do estado. Essas medidas foram a quarentena e o isolamento social. Escolas, shoppings, restaurantes, entre outros estabelecimentos foram fechados. A rotina de todas as pessoas do estado foi radicalmente transformada. Mudança na qual também atingiu os indivíduos com autismo, para entender o que foi radical para essa parte da população, é preciso conhecer um pouco do transtorno.

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Segundo a coautora do livro “Autismo um olhar por inteiro", a neuropsicóloga Amanda Peixoto, o momento que estamos vivendo trouxe prejuízo iguais para todo mundo como: ansiedade, estresse excessivo, déficit de atenção. O indivíduo autista só vai demonstrar de uma forma diferente. 

“Um tópico que chamou muito atenção, de acordo com as queixas dos pais e responsáveis, foi o aumento de dificuldades de socializar com outras pessoas”, destacou a neuropsicóloga.

Durante o período de quarentena a atenção ao comportamento deve se intensificar em relação ao indivíduo com TEA, porque é comum ele ter dificuldades para se comunicar e expressar seus sentimentos. Geralmente, o comportamento dele vai sinalizar o que está acontecendo.

Diante deste cenário, Amanda frisa a importância dos pais conhecerem e compreenderem o que seus filhos estão tentando dizer com um comportamento diferente. “Nesse período, em casa com a rotina toda modificada pode aflorar características do transtorno”, concluiu a neuropsicóloga.

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Aqui em Maceió temos a Assista - Associação de Pais e Amigos do Autista para acompanhar os pequenos durante sua trajetória de vida. Foto: Renata Marques

Quanto aos momentos de agressividade, para Amanda, tem que dá tempo para o indivíduo, se ele está assim é porque quer dizer algo. Portanto, é estar atento e aguardar. 

Com o ‘novo normal’ causado pela pandemia, muitas coisas foram modificadas na rotina do autista, uma delas foi o modo de tratamento que eles estavam acostumados. As associações e clínicas tiveram que fechar nos primeiros meses e seguiram com atendimentos online, sendo um grande desafio para os profissionais e para os pacientes.

Janaina Gracindo é terapeuta ocupacional com mais de 3 anos trabalhando em duas associações para crianças, adolescentes e adultos com autismo. Ela explicou sobre um novo método para continuar o tratamento durante a quarentena:

“O método online nos trouxe uma nova forma de alcançar nossos usuários no seu domicílio e assim, alcançar novas habilidades cognitivas, sociais, sensoriais e motoras.”, conta a terapeuta. 

Ela disse que foi uma adaptação tanto para os profissionais que precisaram utilizar coisas do dia a dia para a elaboração das atividades, quanto em relação aos horários dos pacientes. Dentro os aspectos, o positivo é que os profissionais acabaram por conhecer mais da rotina das crianças, podendo adaptar as atividades cada vez mais.

Mesmo com todas as tentativas, nem todos se adaptaram, segundo Janaina. "Houve regressão por parte de alguns pacientes, como atividades que elas já sabiam fazer sozinhos, como ir ao banheiro.”, concluiu. 

Esse momento virtual não é fácil, principalmente para as pessoas que passam por esse tipo de Transtorno, sendo assim, é muito importante manter os atendimentos presenciais. A rotina para o indivíduo com autismo é essencial, e muitos sentiram falta de irem para as suas consultas semanais.

Na casa do João Pedro de 14 anos com autismo entre moderado e severo não foi tão difícil entender o que estava acontecendo no mundo, mesmo assim nos dias de ir para as consultas, ele lembrava da van que o levava para a associação de autistas. Para explicar o que estava acontecendo, a mãe dele, Joyce Marinecia, apanhou uma lousa e deu uma aula para explicar o que era coronavírus e porque eles não podiam mais sair de casa. 

“Quando chegava o dia, eu me antecipava e perguntava porque não estávamos saindo e ele respondia que era por causa do coronavírus”, relatou. 

A neuropsicóloga, Amanda Peixoto, falou sobre a criação de uma nova rotina, para a organização do próprio autista. "É importante ter hora para tudo, comer, dormir, acordar. E, ainda mais importante, é toda a família entrar nessa mesma rotina, não ser algo separado e sim algo que todos façam juntos”.

Ela ainda reforça que a família vai ser um espelho do indivíduo Autista. “Uma família que está com uma rotina desorganizada, a criança vai se sentir desorganizada também, então a primeira coisa que tem que fazer nesse momento é criar uma nova rotina unificando toda a família”, completou.

Hora da aula e agora?

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Na associação, as crianças fazem atividades para exercitar a coordenação motora. Foto: Renata Marques

As escolas foram inicialmente fechadas em março de 2020. A princípio seriam duas semanas sem aulas, mas com o decorrer que a pandemia foi se instalando no estado, a primeira medida do governo foi antecipar as férias do mês de julho para manter crianças e adolescentes em isolamento social. 

Foi no segundo semestre de 2020 que o governo de Alagoas autorizou a volta às aulas de modo remoto, seguindo todas as instruções passadas pelo Ministério da Educação (MEC). Essa mudança radical no método de ensino pode tardar o desenvolvimento educacional de crianças e adolescentes típicos como atípicos, segundo Amandy Peixoto, psicopedagoga.

Joyce Marinecia, mãe do João Pedro, falou que, em 2020, com a conta de tudo que estava acontecendo e com o caos que o mundo se encontrava, preferiu tirar o filho da escola e esperar tudo se acalmar para retornar. 

Para a psicopedagoga, houve muita desistência dos pais em manter seus filhos na escola durante esse período. Os pais precisavam ser professores, coterapeutas e amigos dos filhos, isso pode causar uma insegurança da parte deles. “As crianças estão com o ânimo abalado, estresse excessivo, houve uma quebra de rotina, é tudo novo e a rotina é crucial para a organização do autista. Do nada ele se deparou tendo aulas em casa, onde tem os brinquedos deles, os pais e em um computador”, destacou.

Ela continua falando sobre as dificuldades da criança autista “A criança e o adolescente autista vão ter uma dificuldade maior para sentar em frente a tela de um computador, porque ele já tem a dificuldade de concentração e organização”, ressaltou a psicopedagoga.

Um exemplo é o João Pedro, que saiu da escola em 2020 mas voltou no início de 2021, porém ainda estamos vivendo a pandemia. Algumas escolas abriram com aulas as aulas continuam de modo online e presencial, mas na escola do João Pedro, as aulas continuam 100% online, porém o estudante atípico está com dificuldade na adaptação. 

“Tentei colocá-lo para assistir, eu sentada do lado dele, dando todo o suporte, mas ele não teve paciência, então respeitei o tempo dele”, disse Joyce, mãe do Pedro. 

Amandy Peixoto frisa a importância de manter a rotina da educação e aprendizagem e alerta para regressão se isso não existir. “Essa ruptura, por um longo tempo, tende a estimular uma regressão do indivíduo não só no comportamento do dia a dia, mas também no que ele já aprendeu”, afirma Amandy.

Isso, Joyce garantiu, não acontece na casa dela. Ela lecionou por três anos antes de deixar o trabalho fora de casa para se dedicar totalmente ao João Pedro, garantindo que, mesmo no período distante da escola, sua rotina não mudasse. “O João Pedro, todos os dias, tem o momento de atividades pedagógicas que eu faço com ele. Não foi porque eu o tirei da escola que ele iria parar de estudar”, relatou.

Mas mesmo com todas as medidas de prevenção tomadas pelo governo para conter o vírus no estado, 2021 continua sendo um ano de muitos desafios, pois a quarentena e o isolamento social permanecem. 

Para Amandy Peixoto, o ensino este ano está mais desafiador que no ano passado, pois agora o professor não tem mais apenas um foco, ele precisa dá aula tanto para os alunos na sala de aula quanto os alunos remotamente no mesmo tempo. “isso modifica a qualidade de ensino que esses estudantes estão tendo. É um desafio, tanto para o professor, como para o aluno”, frisou.

Ela complementa falando da importância de uma auxiliar na escola e de acompanhamento em casa. 

É isso o que Pedro está esperando para voltar para as aulas, segundo a mãe, a auxiliar vai ser essencial para o desenvolvimento do filho na escola. “Eu não vou colocar o Pedro para fazer as atividades das outras crianças assim sem ele conseguir acompanhar. Prefiro esperar a auxiliar chegar para acompanhá-lo e ele voltar para a escola”, conclui Joyce. 

E como fica a ansiedade?

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Durante a pandemia, a associação seguiu todas as recomendações do Ministério da Saúde. Foto: Renata Marques

Durante a quarentena, a Universidade de São Paulo (USP) fez uma pesquisa que envolvia onze países, sobre o aumento da ansiedade no período de isolamento social, nessa pesquisa o Brasil foi um dos países que lideraram com 63% dos casos. Levando em consideração, a neuropsicóloga, Amanda Peixoto, relata que as maiores queixas dos pais e responsáveis de indivíduos autistas é sobre a ansiedade que eles aderiram na quarentena.

“Cada indivíduo expressou esse comportamento de uma forma. Não existe um padrão para a pessoa autista do mesmo modo que não existe para a pessoa típica”, explicou Amanda.

A Marluce de Souza, mãe do José Vinicius de 26 anos com autismo severo, relatou que, apesar do filho não apresentar agressividade, ela notou a ansiedade através da alimentação. “Ele está comendo um pouquinho mais, mesmo eu fazendo uma rotina de alimentação regrada, às vezes ele dava uma escapada, e em consequência disso ele até deu uma engordadinha", conta. 

A neuropsicóloga frisa que, a ociosidade que a quarentena está trazendo, ajuda nesse tópico, que é a ansiedade, e reafirma a importância a rotina nesse caso. E essa foi uma das saídas que Marluce encontrou para ajudar o seu filho. “Elaborei algumas atividades que encontrei na internet para entreter o Vinicius, além disso eu conheço o meu filho e sei o que ele está querendo dizer quando chora e isso ajudou muito durante essa pandemia”.

Edição:

Caroline Peixoto;

Fotografia:

Renata Marques

Design:

Caroline Peixoto;

Reportagem:

Renata Marques

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