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O caminho da renda, nosso filé

As histórias por trás do tradicional artesanato alagoano, marcado por um traçado colorido e  único, com origens de muita tradição e respeito 

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O sol forte na espera do ônibus verde já trouxe com ele um spoiler de uma das descobertas do destino final, que carrega atualmente uma das cores presentes no traçado alagoano. Esses pontos - de ônibus - para ir e chegar não foram os únicos que esbarramos no caminho.

Carregados de autenticidade, os pontos característicos da primeira reportagem especial da ‘Cuscuzeira’, são artesanais e cheios de cultura. É o bordado Filé encontrado no Pontal da Barra, em Maceió - considerado ‘Patrimônio Imaterial de Alagoas’. Descobrimos a influência desses pontos na vida da comunidade do bairro e dos artesãos que não deixam - nem pretendem - abandonar a tradição de confeccionar as peças.

Sem demora, ao andar pelas pequenas ruas do Pontal é possível encontrar mulheres ainda mais fortes do que a honraria de ser patrimônio estadual que o bordado possui. Não é muito difícil encontrar algumas delas com seu tear, linhas e agulha, enquanto conversam com conhecidos e observam a movimentação de turistas curiosos. 

Que o ‘tempo’ e ‘tradição’ não são sinônimos, isso é sabido por muitos. Mas na ‘vida real’ as regras da tradição e do tempo podem não só se tornar semelhantes, como também crescer, ensinar e revelar histórias únicas. Mesmo que lugares ‘antônimos’, como hospital, sala de aula e pesca se cruzem.

Foi o que aconteceu com a ex-técnica de enfermagem Vera Lúcia, que deixou os corredores do hospital para continuar seu trabalho artesanal com Filé Alagoano. E com a ex-professora Lucy de Joazeiro Petrúcio que se apaixonou, trabalhou e criou os filhos no bairro banhado pelo mar e pela lagoa Mundaú.

Dona Vera Lúcia, 67 anos, nos recebeu em sua loja em um dos intervalos entre um bordado e outro, com tear - estrutura onde estica as linhas para serem confeccionadas as peças - ‘estirado’ ao sol para secar nos fundos do local. Em uma conversa extensa e agradável nos relatou a fluência do  bordado não apenas na sua vida, mas em relação direta com os moradores do bairro.

Tear secando ao sol

“Aqui quem não é parente, é compadre”, revela ela sorrindo após ser perguntada se o bordado faz parte da rotina dos moradores. “Não existe uma pessoa por aqui que não conheça o filé ou alguém que saiba bordar peças para vender ou vestir.” 

Lúcia aprendeu a bordar antes mesmo de se profissionalizar aos 19 anos, e não abandonou mais o Filé. Nem mesmo depois de se tornar auxiliar de enfermagem. “Trabalhei 43 anos em hospital, mesmo ausente abri minha loja e nunca deixei de bordar. Isso pra mim é minha terapia, é minha diversão, faz parte da minha vida, da minha história e de toda a minha família.”

Dona Lúcia bordando em sua loja

TRADIÇÃO E RENDA FAMILIAR

Engana-se quem pensa que os homens não fazem parte da trajetória do bordado. Bordar é tradição na região, filhas e filhos das rendeiras aprendem ainda jovens os principais pontos do Filé. Seria motivo de preconceito ou discriminação para alguns, mas para o artesão Guilherme dos Santos o maior valor é a sua arte.

Guilherme vive da confecção e venda das peças artesanais

Ainda criança, atento aos pontos firmes e as linhas coloridas usadas por sua mãe e tia, aprendeu a bordar aos 12 anos e não parou. Já são mais de 30 anos confeccionando Filé.

“Toda minha vida foi e é o filé, não tive um emprego formal, mas tenho saúde e é isso que eu sei fazer, por amor”, responde de forma otimista e sorridente a pergunta sobre sua fonte de renda.

Em meio a toda a cultura e ancestralidade que os bordados carregam, logo nas primeiras lojas da Av. Alípio Barbosa da Silva encontramos Daniela Andrade, nascida e criada no bairro. Não demorou muito, ela expôs orgulhosa os pontos de costura de filé que ela criou e patenteou.

Daniela orgulhosa do ponto que patenteou

Orgulhosa por toda sua história com filé e com próprio negócio, ela diz que a arte de bordar sempre esteve na família marcando três gerações.

“Aqui em casa todo mundo sabe costurar, minha vó ensinou a minha mãe, que ensinou a mim e a minha irmã, e todas nós fazemos filé para vender ou revender”, conta sorrindo enquanto mostra as peças confeccionadas.

TEMPORADAS DO FILÉ

Os artesãos lamentam a ausência do turismo antes mesmo da paralisação por conta da pandemia do Covid-19, o Pontal da barra já estava longe da rota de pontos turísticos por parte das agências de viagens. As rendeiras e empresários veem dificuldade para manter as portas abertas sem fluxo de caixa.

A queixa recorrente, é quando os turistas chegam até o local as agências estabelecem um tempo curto para conhecer o bairro e despertar o interesse nas peças. Os artesãos acreditam que a pressão dos agentes de turismo também atrapalha na negociação das vendas.

“Eles chegam para visitar, mas passam no máximo 40 minutos para conhecer tudo, não dá tempo nem de escolher o lugar, muito menos de pesquisar o melhor tecido ou preço”, lamenta Guilherme um dos rendeiros que possui loja na avenida.

Por motivos como esses, Maria das Graças, mais conhecida como ‘Neguinha’ na região, aos 60 anos, decidiu fechar as portas da pequena loja que tinha e passou a ser funcionária em duas lojas em horários diferentes. 

Neguinha na porta da loja em que trabalha

Daniele Andrade, uma das rendeiras e proprietária de loja com quem conversamos, vive apenas da venda e confecção das peças e se queixa na oscilação nas temporadas. “O ano começou bem, janeiro teve um ótimo movimento, esperava que como no ano passado em fevereiro continuasse o mesmo ritmo, mas caiu muito. Fica tudo incerto.”

A tradicional avenida do bairro é composta por várias lojas e pequenas galerias de artesanato administradas por empresários e rendeiras da região. Eles tentam se organizar por meio da Associação dos Artesãos do Pontal. Segundo Adriana Gomes, empresária e presidente, são organizadas duas reuniões mensais, uma com associados e outra apenas com a diretoria.

De acordo com Adriana, são mais de 400 associados, sendo cerca de 56 associados ativos, desse total apenas quatro homens são cadastrados oficialmente.

PONTAL DOS PONTOS DE HISTÓRIA

Laços familiares intensos é o que os moradores do Pontal da Barra carregam aos montes. Histórias que se cruzam e em determinados pontos são semelhantes, foram documentados até em livro. Sim, a professora aposentada Lucy de Joazeiro Petrúcio, 80 anos, construiu a maior parte de sua vida no bairro, mas após a morte de seu marido “os vizinhos desacreditaram, acharam que iria ficar doida ou com depressão”. 

Escrever o livro foi a reviravolta para superar a perda e demonstrar o seu apreço, carinho e respeito a todos moradores do bairro. Por esse motivo, apesar de morar a mais de 50 anos no Pontal, Dona Lucy não se considera pontalense.

A autora de ‘Eu e o Pontal da Barra - suas lendas, sagas e lutas’ lançado em 2017, levou dois anos para produzir o livro. Isso por conta das entrevistas feitas por ela, com personagens e personalidades importantes da história do Pontal. Foi a ajuda necessária para ocupar a mente a dar a volta por cima depois da morte do marido.

Ela lembra da areia fofa na estrada quando chegou para viver no bairro, tinha poucas casas de pau a pique coberta de palha, sem água e energia elétrica.

Livro 'Eu e o Pontal da Barra - suas lendas, sagas e lutas’

Dona Lucy recitando seu poema presente em seu livro

“Eu não sei fazer filé, só sei dar aula”, disse sorridente e sem cerimônia ao receber a equipe do Cuscuzeira em sua loja. Lucy se apresenta rodeada pelos filés coloridos, e conta sua história intensa e sentimental com o bairro.

Filha de italianos e nascida em Maceió, formou-se em Engenharia na UFAL, onde mais tarde ensinou por quase três décadas. Sua carreira como docente passou também por escolas municipais e estaduais.

Atualmente, divide com tranquilidade seu tempo entre a loja e as boas conversas com as amigas artesãs à espera dos turistas. As peças de filé e as rendas coloridas vendidas por ela, são produzidas por artesãs locais, inclusive por sua filha conhecida como a Ligia do Pontal.

“Quando cheguei aqui não tinha nada, mudança veio com a chegada da Marinha na região, aí desenvolveu”, relembra ela. “Na época, existia dunas de areia, mas foram destruídas e os marinheiros saíram daqui com a doação do terreno para a exploração de Salgema da Braskem”.

Com 20 anos, em 1960, quando chegou ao bairro não esperava criar cinco filhos, dois deles adotados deixados na porta de sua casa. Foram educados por ela e o saudoso marido, o carteiro Gonçalo Menino de Lins. Bem conhecido e engajado nas causas da comunidade regional, foi homenageado com seu nome em uma quadra esportiva do bairro.

Sobre a marca e importância do bordado, Lucy destaca dois nomes marcantes como as mais famosas rendeiras do Filé. Elida Bonfim e Teca Rendeira, a última conquistou espaços fora de Alagoas levando pontos da costura local para outros estados brasileiros, e acabou sendo citada na música ‘Só em Maceió’ do sambista Martinho da Vila.

Orgulhosa de viver e ter tantas histórias no Pontal da barra, a autora e professora é especifica ao apresentar o motivo de gostar tanto do lugar. “O que me encanta é conhecer as diversas etnias, pessoas do mundo todo, que chegam aqui no Pontal para conhecer o Filé a nossa cultura. Essa troca de conhecimento é o que me move. Para mim é como eu voltasse a sala de aula.”  

FILÉ EM COMBATE

As rendeiras precisaram se reinventar com a chegada da Covid-19 em Alagoas. Os decretos do governo estadual ao combate do novo coronavírus, determinaram o fechamento dos estabelecimentos e pontos de artesanato no Pontal da Barra. E agravou o que já estava difícil de obter, o lucro.

Sem o turismo e impossibilitadas de abrirem as lojas, as artesãs, assim como a maioria da população alagoana, não tinham dimensão das consequências que o vírus traria. Dos 180 pontos comerciais presentes no Pontal da Barra, que precisaram fechar as portas, 30 foram entregues pelos comerciantes por não conseguirem arcar com as despesas. A alternativa foi trazer a renda estampada para a linha de frente do combate.

A ideia de confeccionar máscaras de Filé surgiu da rendeira Edielma Trajano, 34, que por conta da crise precisou entregar o ponto alugado onde funcionava sua loja. Para ela e algumas rendeiras do bairro, essa foi a única alternativa de não ficar sem renda alguma durante a pandemia. 

“Minha loja tinha 5 anos, de repente ter que fechar é muito triste, chorei demais. A solução nesse momento, foram as máscaras”, relata Edielma. 

A Associação dos Artesãos do Pontal da Barra abraçou a iniciativa da Edielma e procurou as artesãs interessadas em produzir as peças de forma emergencial para levantar renda.

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Influenciadora digital, Rica de Marré divulga máscara de filé. (Foto: instagram)

Segundo Ingryd Carla Avelino, secretária da Associação, 15 artesãs fizeram parte da força tarefa na produção das peças e cerca de 5 mil máscaras foram vendidas com estampas variadas de Filé. A divulgação das peças feita pelo Instagram e Whatsapp, superaram as expectativas de venda durante o período de isolamento.

Mas como esperado, os pedidos foram diminuindo. A fase amarela da retomada do comércio no estado, permitiu a reabertura gradativa de alguns estabelecimentos, inclusive no Pontal. 

A rendeira Ana Paula da Silva, 38, conseguiu um acordo com a dona do espaço que possui sua loja para não pagar durante o período de portas fechadas. Ela participa também da iniciativa de produção das máscaras, mas a renda emergencial possibilitou apenas o pagamento de dívidas básicas.

Depois de 10 dias após abertura e sem vender nenhuma peça, a rendeira lamenta a situação atual do bairro. “Abrimos as portas, mas sem o turismo não temos vendas.”

Edição:

Caroline Peixoto;

Fotografia:

Caroline Peixoto; Matheus Xavier e Jay Oliveira;

Design:

Caroline Peixoto;

Reportagem:

Matheus Xavier e Maria Eduarda Xavier;

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