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"Não tinha essa história de estudar"

Entendendo os principais fatores que afastam mulheres negras do ensino em Alagoas

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“Era tarde, chovia muito, a lagoa invadiu minha casa. Não tinha como ficar, peguei meus irmãos, uma trouxa de roupa e esteiras. Não tinha colchão nem cama para nós na casa da minha vó. Saímos, em meio a água e o desespero.”

Edileuza tinha apenas 14 anos quando a enchente levou mais um pedaço do seu sonho de continuar os estudos. Hoje, sabendo apenas escrever seu nome, está com 60 anos, seis filhos e incontáveis memórias dolorosas. Apesar de tudo, segue a vida como dona de casa e despinicadeira de sururu.

Ela é o reflexo de muitas mulheres que na infância, por sofrer ou precisar trabalhar, não enxergavam a alfabetização como necessidade.

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A história de Dona Edileuza é igual a de milhares de mulheres negras que passam a vida inteira zelando pelos seus. Quando crianças, perdem a oportunidade de serem alfabetizadas na escola já que precisam cuidar da casa e dos irmãos mais novos.

Para manter a família, a solução é trabalhar. Sem escolaridade o caminho é seguir de maneira autônoma. Lavando roupa, comercializando artesanato, como domésticas, vendendo quentinhas ou como a Dona Edileuza, limpando mariscos. Essas mulheres fazem o que for necessário por quem amam e o mínimo por elas.

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Dona Eronilda tem 79 anos, perdeu a mãe quando tinha sete. Ela e os irmãos optaram por não ficar com o pai, pois ele bebia em excesso e acabaram se dividindo em casa de parentes. 

“Ficamos todos como se vivêssemos abandonados. Só foi sofrimento, eu não gosto de lembrar não.”

Quando jovens, essas mulheres deixam de lado seus estudos para ajudar os pais. Quando adolescentes ou adultas, a vontade que prevalece é a do marido. 

Crescendo ao sofrimento, tanto Eronilda quanto Edileuza casaram na faixa de 16 anos e tiveram filhos logo em seguida. Após isso, não tinha como estudar. Passaram a cuidar da casa.

A EVASÃO ESCOLAR

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Edileuza sabe apenas escrever o seu nome. Foto:Thatyana Ferreira

O zelo pelos familiares, a necessidade, a falta de incentivo, a gravidez e o casamento precoce são alguns dos motivos de evasão escolar. Após deixar a escola e se ocupar com as crianças e a casa é difícil para essas mulheres visualizarem o retorno e conclusão de seus estudos.

Larisse Pontes é antropóloga e estuda a questão racial no país. É mulher, negra e natural de Alagoas. Ela corrige o termo ‘afastamento’. Porque afinal, essas mulheres não se afastam de forma voluntária, elas são afastadas.

Esclarece que existem várias questões envolvidas. Primeiro vem a racial, de forma mais geral. Logo em seguida, a de gênero e então temos a estrutural. Todas interligadas formam várias situações de opressão. São diversas variáveis que facilitam essa evasão escolar.

Larisse explica que, ser mulher negra e alagoana reflete muito na vida educacional. Isso acontece porque Alagoas é um estado do nordeste que sofreu inúmeras situações históricas que precarizaram a educação. “Sendo negra, pobre, mulher e nordestina. São vários marcadores que só potencializam esse afastamento da educação”, reflete. 

Muitos professores não conseguem entender esses fatores, e acabam por achar que todos possuem as mesmas oportunidades. 

A antropóloga enxerga que ‘meritocracia’ é um termo cruel. Afinal, mulheres negras são as que mais têm dificuldades. Desde a sua condição material, física até a psicológica. Tornando tudo ainda mais desafiador. 

A QUESTÃO RACIAL

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Para entender o distanciamento, é necessário compreender a questão racial. Existe a presença do racismo no ambiente escolar. Em sua pesquisa sobre transição capilar, Larisse questionou às mulheres sobre seu maior obstáculo para essa transição. Muitas apontaram a escola.

Há constrangimento e preconceito, tanto por parte dos colegas quanto por parte de professores. “A educação precisa ser anti-racista, não só ‘não racista’. Eu vi que a escola é um dos lugares mais cruéis para pessoas negras.”, reflete indignada. “O quanto essas mulheres, dentro da sala, independente da idade, passam por situações de silenciamento, constrangimento e, até mesmo, apagamento”.

O racismo é algo muito violento. Sutil, mas violento. Pode ser o olhar, um gesto, uma brincadeira de mau gosto. Enfatizando que tudo isso na trajetória dessas mulheres, é algo problemático. Tão problemático que também pode levar a evasão escolar. 

Essa realidade reflete nos números e transforma essas mulheres em estatística.

Segundo os dados de 2018 divulgados pelo IBGE, a taxa de analfabetismo no Brasil tem seu maior índice entre pessoas negras e pardas com mais de 60 anos. Nesses números as mulheres também são maioria.

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Em 2015 a meta do Plano Nacional de Educação (PNE), era a diminuição do índice de analfabetismo para 6,5%. No ano de 2018, a taxa era de 6,8%. O plano foi criado com a intenção de erradicar o analfabetismo no Brasil até 2024. 

Analisando os dados por estados, Alagoas está em primeiro lugar no país com o maior índice de analfabetismo. Com 17,2% entre a população de mais de 15 anos de idade. Se tratando da população com mais de 60 anos o índice é de 41,1%.

UMA VISÃO DE FUTURO

Para entender como afastar as crianças dessas estatísticas, a psicopedagoga Amandy Peixoto, explicou a importância da alfabetização aos cinco ou seis anos de idade, e todos os pré requisitos.

Para que a criança entenda como funciona a leitura e a escrita de forma mais natural, ela precisa ter algumas noções que são ensinadas nas séries anteriores a alfabetização. Por exemplo, o acesso lexical, que nada mais é do que a criança conseguir visualizar o objeto no momento em que ler seu nome. Como uma biblioteca no cérebro, em que ela lê a palavra e consegue puxar seu significado. 

Esse processo de aquisição da leitura é essencial, sem ele a criança pode se tornar um analfabeto funcional. Onde ela lê algo, mas não consegue assimilar. 

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Por ser um processo de etapas, ser alfabetizado aos cinco ou seis anos permite que, a cada fase que passa, a criança tenha novos conhecimentos. Amandy alerta que, se a criança perde essas etapas, pode dificultar a aprendizagem futuramente. 

Ela comenta sobre a importância do professor na vida do aluno, principalmente em escolas públicas. “A cada dia de trabalho, é um dia que ele tem para conquistar e motivar o aluno para que ele consiga se manter na escola. Já que, na maioria das vezes, o contexto em que vivem não é favorável ao estudo.” 

As crianças precisam ver nos professores, alguém que admiram. Com o ambiente em que vivem, precisam ter uma visão de futuro muito grande. Só quem pode fazer isso acontecer, são os mestres. A falta do incentivo dos pais, pode trazer sequela aos filhos. Essa visão de futuro, pintada pelos professores, é o que fará com que eles não deixem os estudos de lado. 

Muitos se permitem a isso, outros se deixam levar pela falta de apoio. 

Um exemplo foi a Eronilda, ela relembra que não estudou principalmente por não ter sido incentivada. “Quando a gente tem mãe e pai que faz tudo por nós, é bom né?”

Ela e Edileuza prezaram por isso, por incentivar seus filhos a concluírem seus estudos e conquistarem o que elas não puderam ter. 

INCENTIVO PARA OS QUE NUNCA TIVERAM

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“Ninguém me disse, ‘pare de estudar’. Mas também, ninguém incentivou.” 

Grinaura Maria tem 49 anos e dois filhos. Trabalha, atualmente, como diarista em uma casa e dois apartamentos. Morou no interior de Maceió até seus 18 anos de idade, e saiu da escola quando casou aos 14 anos. Ela diz que, talvez, nem mesmo tivesse estudado se não fosse pela sua patroa. A falta de incentivo dada a ela e seus irmãos, veio dos seus pais que nunca estudaram.

Aos 18 anos, se separou e saiu do interior. Seus filhos ficaram na fazenda com sua mãe. 

Foi com 39 anos que Grinaura decidiu que queria estudar novamente. Com o apoio de amigos, ela entrou na EJA (Educação jovens e adultos). Atualmente, fazem cinco anos desde que se formou no ensino médio.

Quando mais nova, ela não sabia o que queria ser no futuro. Hoje se tivesse se formado no tempo certo, Grinaura afirma que faria Fisioterapia. Seu sorriso alcança os olhos quando fala sobre ser massoterapeuta. Futuramente, ela pretende tentar uma vaga na universidade. 

Como forma de mudar a realidade de muita gente. Revirar essas estatísticas que só fazem subir, jovens e adultos buscam na Educação de Jovens e Adultos uma maneira de concluir os estudos e, até mesmo, chegar ao ensino superior.

A EJA é uma modalidade de ensino que garante às pessoas, o direito à escolarização básica em igualdade de condições, por meio de formações que se orienta pela concepção de educação ao longo da vida. Seu público é de jovens maiores de 15 anos para o ensino fundamental e maiores de 18 para o ensino médio. 

Até 2018, as mulheres eram a menor taxa de matrículas na EJA. Já em 2019, procurando superar as estatísticas, elas são a maioria. 

Segundo a SEDUC, só em 2019, a EJA contou com 121.408 matriculados, sendo 61.463 do sexo feminino, juntando as redes estadual, municipais e privadas. Conforme os dados do Censo da Educação básica de 2019, 87,9% dos matriculados na EJA são pretos e pardos. 

Moisés é diretor da escola estadual Aurelina Palmeira de Melo, instituição contemplada pela EJA. De acordo com ele, não é difícil se matricular. Basta procurar a escola e atender as exigências mínimas do projeto como: a escolaridade anterior comprovada e documentos básicos. 

Na escola estadual em que Moisés é diretor o índice de mulheres matriculadas na EJA é de 55%, já de homens é 45%. Os dados são de 2019, em 2020 o processo de matrícula não foi concluído devido a pandemia da COVID-19.

Durante esse período de isolamento social, as aulas da EJA funcionam através da plataforma Google Classroom. As atividades passadas através da plataforma serão computadas para valer nota. No entanto, não é surpresa que muitos não consigam entregar as atividades nesse período. 

Seja por falta de material ou por falta de internet, a conectividade é um problema durante esses tempos de pandemia. Segundo a pesquisa TIC Educação feita em 2019, apenas 24% dos alunos de rede pública e privada, declaram ter feito provas e simulados, deixando claro o problema que estão tendo dificuldades para acompanhar as aulas no ambiente virtual. Quanto mais velho o aluno, maior é o índice. 

Apesar do mundo estar passando por esse período, não dá para negar que a EJA serve como uma forma de incentivo para aqueles que não o tiveram quando mais novos. 

Aprender algo novo é difícil em qualquer idade. A dificuldade é ainda maior para quem escutou a vida toda que não precisava dos estudos. Com vida já construída e outras preocupações para lidar, tudo que essas mulheres precisam é de um 'empurrão'. De alguém que as faça perceber que a aprendizagem é para toda a vida. Nunca se está velho demais para estudar. Afinal, se aprende algo novo a todo momento.

A EJA está sendo apoio para que mulheres como Dona Edileuza e Dona Eronilda possam realizar seus sonhos.

A primeira idealizava ser costureira e fazer roupas para famílias e pessoas necessitadas. A segunda queria ter concluído um estágio que fez por três meses na maternidade Nossa Senhora do Bom Parto. 

“Eu queria terminar o que comecei, ser enfermeira. Mas não tive condição. Hoje eu estaria aposentada na profissão.” Dona Eronilda conta, seus olhos brilhando de emoção e ar nostálgico. “Chorei muito quando saí, porque eu tinha muita força de vontade. Até hoje tenho o papel de quebra de contrato.”

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Edição:

Caroline Peixoto;

Fotografia:

Thatyana Ferreira

Design:

Caroline Peixoto;

Reportagem:

Caroline Peixoto; Thatyana Ferreira

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