Até quando mulheres serão sufocadas por seus espartilhos?
- Marcondes Augusto

- 30 de mar. de 2021
- 2 min de leitura
Em ‘Amores’, Léonor de Récondo trata da paixão entre duas mulheres num mundo tão real que faz o leitor questionar a ficção
Por Marcondes Augusto
Nesse mês da mulher, me rendi à deliciosa experiência que é ler 'Amores', romance de Léonor de Récondo, lançado no Brasil em 2020 pela editora Dublinense. A obra que não se prende ao óbvio ao tratar de um casamento falido, debate também sobre o feminino, a mulher e seus desejos, a ânsia pela liberdade e a incessante vontade de viver.

Passado no interior da França em 1908, o livro conta a história de amor entre Victoire casada com o Tabelião Anselme, uma dama da alta sociedade que vive uma vida medíocre, presa às amarras dos bons costumes e Celéste sua criada, mulher comum, sem oportunidades e que vive para o trabalho. Ambas se aproximam quando Celéste engravida e o amor pela criança as une de uma maneira que jamais imaginaram.
A forma como a autora constrói o amor entre as duas mulheres encanta não só pela delicadeza, mas, também pela forma mística que elas se amam. A admiração mútua, o desejo, a descoberta, faz o leitor se emocionar conforme a leitura avança. Celéste e Victorie compartilham de um amor singular, pelo filho e por elas.

Com essa paixão, Victoire começa a se reconectar consigo mesma, numa jornada de autodescoberta, onde afirma suas decisões e sabe o que quer, a personagem encontra seu caminho para a liberdade e começa sua caminhada. Enquanto Celéste começa a ter dúvidas sobre seu futuro e medo do que está por vir, reconhece que se encontra numa posição frágil pois não desfruta dos mesmos privilégios de sua amada e fica mais e mais retraída conforme o tempo passa.
Léonor impressiona em sua escrita e a obra faz por merecer a leitura, no entanto, após um pouco mais da metade do livro, a narrativa se apresenta apressada e isso incomoda, a sensação é que a autora estava determinada a terminar o livro o quanto antes e isso prejudicou a parte final. Algumas páginas a mais seriam bem vindas para uma melhor construção.
Embora curto o livro impressiona e me faz ansiar por mais uma obra da autora, estou disposto a me aprofundar em sua escrita e descobrir novas histórias.
Contar a história de Victoire e Celéste é contar a história de várias mulheres que estão em um eterno processo de descoberta de si mesmas e que estão estagnadas devido a pressão da sociedade.
O contraste social entre as duas, não impediu que ambas sofressem algum tipo de opressão apenas por serem mulheres, muitas outras, assim como elas, estão presas em seus espartilhos, sufocadas pela falta de oportunidades, aguardando o momento em que poderão, enfim, respirar.






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