Um mês de ‘Flores’, o que fica além dos números e julgamentos ao clipe de Vitão e Luísa Sonza
- xaviercivic
- 11 de jul. de 2020
- 4 min de leitura
As diferentes reações, ataques de ódio, preconceito e a reflexão que a parceria trouxe ao público
Por Cecília Lopes e Matheus Xavier
Não é nenhuma novidade que o cenário do pop brasileiro dá o que falar a cada lançamento. Seja por uma polêmica em letra, um featuring inesperado ou a química entre cantores em um novo videoclipe. Após o “nascimento” dessas músicas e/ou clipes, surgem análises de discurso e narrativas defendendo, elogiando ou criticando as produções. O inusitado ou peculiar, está na forma de reação que o público e os fãs dos artistas reagem a cada play.
O buzz mais recente, traz como protagonistas o novo queridinho do mainstream brasileiro, Vitão e a cantora Luísa Sonza. A canção e clipe da música ‘Flores’, lançada a um mês nas plataformas digitais, acumula mais de 60 milhões de visualizações: algo satisfatório a carreira de ambos os artistas se não fossem as reações de ‘deslike’ e ‘like’.
A canção é uma composição do próprio Vitão junto com o trio de compositores e produtores chamados Los Brasileros.
Vários foram os memes - montagens quase que imediatas, às vezes engraçadas, sobre diferentes assuntos - que circularam nas redes sociais, mas alguns, diferente do título da música, não trouxeram nada leve ou romântico, pelo contrário.
Esse foi o primeiro trabalho da cantora após o anúncio da separação amigável e madura com o humorista, Whindersson Nunes. Algo que não interfere na qualidade ou entrega profissional da artista, acabou transformando-se em um circo de ódio gratuito e sem escrúpulos.
Pelos fãs, Luísa foi alçada por conseguir se concentrar na carreira após o fim do casamento, por outro foi xingada e acusada de ter traído o ex-marido com o seu parceiro na canção, Vitão. Por esses agressivos, foram feitos mutirões de ‘deslikes’ no vídeo, na tentativa de buscar um motivo pelo fim da união e “manchar” a imagem da artista.
Já sobre o intérprete, os comentários foram positivos, de parabenização por parte dos homens diante da fantasiosa traição e por estar “pegando a cantora”. O cantor por sua vez saiu em defesa da cantora, desmentiu todas as suposições machistas levantadas contra Sonza que apenas participa da música, mas foi o principal alvo dos ataques e críticas.
Os 4,7 milhões de 'descurtidas' e mais de 2 milhões de curtidas no clipe, provocou o efeito reverso, mesmo após um mês de lançamento, a canção está na terceira colocação entre as músicas mais ouvidas no Spotify Brasil.

Avaliação do público ao clipe - likes e deslikes (Reprodução: Youtube)
ALCANCE
Mas não foi só isso, as insinuações, xingamentos e suposições do público, também abriu um ‘leque’ de discussões levantadas a partir das cenas do clipe e sobre a letra da música.
A canção é cheia de referências sexuais e em um dos versos Vitão interpreta: “[...] fica de quatro só mais uma vez, como quiser, pode ficar de três”. Uma referência controversa e digamos que de mal gosto, fez com que algumas pessoas na internet reagissem ao trecho como uma possível referência ao personagem Saci do Sítio do Picapau Amarelo, um exemplo de piada ofensiva que acabou causando constrangimento em pessoas amputadas.
Além do machismo estampado nos comentários, algumas pessoas levantaram a questão sobre o capacitismo. Derivado da palavra inglesa, ‘ableism’, o capacitismo foi usado pela primeira vez por volta de 1985, para dar nome ao ato de discriminação, preconceito e opressão contra pessoas com deficiência. Em uma sociedade capacitista as pessoas sem deficiência são as únicas consideradas capazes aos olhos de uma grande maioria na sociedade. O capacitismo pode ser relacionado à pessoa com deficiência, assim como o racismo é relacionado à pessoa com cor de pele diferente.
A blogueira e influencer Ana K Melo se pronunciou em seu perfil do instagram, segundo ela os memes gerados a partir do verso da música, podem ser um gatilho para crises de depressão em pessoas amputadas que se sentem envergonhadas e tristes com o próprio corpo. Em seu perfil, ela aborda assuntos como capacitismo, saúde mental e sua vida como uma mulher deficiente.
“Em alguns posts tinham fotos de mulheres amputadas durante a relação sexual (o que é crime). Mas as pessoas compartilham com frases dizendo que “ela teve sorte” de alguém querer. Esse é o retrato puro do capacitismo.”, escreveu Ana em sua publicação no instagram.

Blogueira e influencer, se pronuncia sobre verso da música - (Reprodução: Instagram)
Para os desavisados que fazem piadas com a condição física de uma pessoa, fica o alerta. De acordo com a lei 6418/05, o preconceituoso pode vir a pagar judicialmente, uma pena que pode chegar de 1 a 3 anos de reclusão e multa, a depender do crime e gravidade em questão.
Sobre os mutirões para avaliar negativamente o clipe, a equipe da artista pensou em ocultar os números, mas Luísa preferiu manter. “Não vou privar porque quero que as pessoas vejam como as mulheres são tratadas até quando só estão fazendo seu trabalho.” desabafou.

Luísa se pronuncia após os comentários machistas e os mutirões de ‘deslikes’ - (Reprodução: Twitter)
A naturalização das atitudes virtuais que começam com xingamentos na internet, além de tomar proporções na vida real atingem particularmente o íntimo das pessoas. Pensar duas vezes e refletir as consequências antes de postar ou compartilhar sua opinião nas redes sociais, evita constrangimentos a outros e prejuízo a si próprio.





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