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As Guerreiras da Terra de Vera Cruz

  • Foto do escritor: thatyanabeatrizfer
    thatyanabeatrizfer
  • 12 de set. de 2020
  • 9 min de leitura

Atualizado: 9 de jun. de 2021

Neste texto, iremos conhecer cinco mulheres que viveram no Brasil na época que a escravidão era “legal” e ainda estávamos nas sombras do país que nos ‘descobriu’.


Grande parte do que sabemos sobre nossas raízes foi contado através de uma ótica masculina. Ótica essa que oprimiu e escondeu as mulheres que lutaram e ainda lutam por nossos direitos. Esse “apagamento” é ainda maior quando essas mulheres são negras ou índias, mas como aqui vamos trazer a tona tudo que estiver ‘abafado’ socialmente, a partir de hoje faremos uma viagem pelo Brasil.


A voz das nossas guerreiras negras e indígenas não vai ser silenciada e a narrativa será recontada pelas lentes das verdadeiras heroínas. Esse é o primeiro de uma série de quatro textos em que vou te contar sobre a vida de 20 mulheres que foram apagadas da história.


Ler. Escrever. Pensar. Você consegue se imaginar vivendo sem um dos três?


No séc. XVI esses eram direitos reservados apenas aos homens e mulheres de posse. Porém, tenha em mente que as esposas eram subordinadas aos maridos, que tinham medo de mulheres pensantes.


Restringindo ainda mais a educação feminina, as deixando responsáveis apenas ao cuidado com a casa, os filhos e a igreja.


A alfabetização foi enxergada como um direito de todos apenas em 1988 a partir da reformulação da Constituição Federal. No entanto, algo que você não sabe é que, em 1561, uma mulher já lutava para que outras pudessem possuir essa autonomia.


Madalena Caramuru é considerada a primeira brasileira a ser alfabetizada. Não há documentos que comprovem o ano, nem o local de seu nascimento. Filha de Paraguaçu, uma índia tupinambá que posteriormente assumiu o nome católico de Catarina do Brasil, e Diogo Álvares Correia, um náufrago português que era conhecido como Caramuru. Casou-se em 1534 em Salvador/BA com Afonso Rodrigues, que também foi o responsável por sua educação.


Madalena não quis guardar sua instrução e estava disposta a enfrentar os interesses da corte. Inconformada com a catequização forçada que crianças indígenas sofriam, em 1561 ela escreveu uma carta ao primeiro padre jesuíta responsável pela evangelização no país.


Na carta ela criticava os maus tratos da corte e cobrava, não só atenção às crianças indígenas, mas a educação das mulheres. Acreditava no poder das palavras e no que elas podem fazer se forem utilizadas em prol de uma luta justa.


O padre apoiou sua causa, mas adivinha quem se sentiu ameaçada?


Se você chutou que foi a corte portuguesa, acertou.


“[...] o indígena que via na mulher uma companheira não via razão para as diferenças de oportunidades educacionais. Não viam o perigo que pudesse representar o fato de suas mulheres aprenderem a ler e a escrever, como os brancos previam. Condenar ao analfabetismo e à ignorância o sexo feminino lhes parecia uma ideia absurda.”

(Arilda Inês Miranda Ribeiro, em a A educação das mulheres na Colônia)


Os portugueses enxergavam como ameaça que as mulheres tivessem as palavras como arma.

Um dos únicos registros de que ela de fato existiu foi escrito por Francisco Adolfo de Varnhagen, um historiador, um homem.


Madalena foi o estopim para que hoje eu e você pudéssemos contar nossas próprias histórias.


Ela queria que outras tivessem domínio completo de si mesmas, sem que alguém precisasse falar por elas, sem que estivessem escondidas na história e apagadas dos livros.


Fabricante de armas. Rainha. Guerreira. Defendeu seu povo e seus ideais. Foi dona de si na vida e na morte. Lutou pelo quilombo tanto quanto seu marido, ainda assim é tratada como lenda e escondida atrás da sombra de Zumbi dos Palmares.


Quem foi Dandara?


Há quem insista em dizer que ela não existiu, pois assim como Madalena Caramuru são poucos os documentos sobre seus feitos. Existem dúvidas entorno do seu nascimento ter sido aqui ou na África.


Tudo que sabemos sobre a mesma começou a ser contado a partir do séc. XVII quando já atuava junto ao Zumbi no Quilombo dos Palmares, território esse que, na época, pertencia a Pernambuco e hoje é parte de União dos Palmares, um município alagoano. Lá ela ajudava nas estratégias, lutava em batalhas e também participava das atividades do dia a dia, como plantio e caça.


Éber Evangelista e Roberto Navarro/ Mundo Estranho


Era livre e por escolha decidiu ir em busca da libertação de outros escravos. Lutava contra os interesses de Portugal e não abaixava a cabeça perante aos ataques dos holandeses. As invasões a Palmares ganharam uma frequência maior 1630, por parte da Holanda.


A GUERRA DOS PALMARES - Óleo de Manoel Victor, 1955


Em 1678 Ganga Zumba, o líder da comunidade e tio de Zumbi assinou um “tratado de paz” com o governo da província de Pernambuco que libertava os palmarinos.


Esse acordo se tratava da libertação para eles e das correntes e chicotes para outros escravos. Ficariam de comercializar os produtos que produziam e plantavam, em troca da liberdade dos palmarinos presos em combates e nascidos no quilombo. No entanto, a maior condição era de que entregassem escravos que escapassem das fazendas.


Porém, Dandara queria mais do que uma aliança que os forçava a entregar outros irmãos ao tronco. Sendo influenciado por ela, Zumbi rompeu com o tio e reivindicou o comando do quilombo. Ganga Zumba foi envenenado por palmarinos insatisfeitos no mesmo ano que assinou o ajuste.


Em seis de fevereiro de 1694 o Quilombo dos Palmares foi atacado e os três filhos que ela teve com Zumbi - Motumbo, Harmódio e Aristogíton - foram mortos em combate. Dandara foi encurralada, a história conta que ela pulou de um penhasco, pois como sempre foi dona de seu destino preferiu a morte do que a senzala.


Após seu suicídio Zumbi reconstruiu o quilombo e ela foi esquecida no abismo do imaginário popular, apagada atrás da grandeza instituída a seu marido.


Seu nome significa princesa guerreira, mas ela tomou posse de rainha e está marcada em nossas raízes. É exemplo para as lutadoras e abolicionistas que vieram a seguir, assim como é para cada uma de nós. Sua vida e morte foram um tributo contra a escravidão e seu legado não vai ser silenciado.


“No seio de Mato Grosso, a festança começava

Com o parlamento, a rainha negra governava

Índios, caboclos e mestiços, numa civilização

O sangue latino vem na miscigenação”


(Samba Enredo da Escola de Samba Viradouro, 1994)


Nossa segunda rainha é símbolo nacional de resistência. Defendeu um grupo de mais de 100 pessoas - sendo 79 negros e 30 índios - durante duas décadas, fundou um parlamento e reorganizou toda a estrutura do maior quilombo de Mato Grosso.


Se tornou enredo de uma escola de samba em 1994. Por causa dela, desde 2014, o dia 25 de julho é o seu Dia Nacional da Mulher Negra. A data foi instituída pela Lei n° 12.987/2014.


Já sabe de quem estamos falando?


Caso não, te apresento agora a rainha Tereza de Benguela. Nascida em 1750, o lugar é desconhecido, podendo ter nascido aqui ou na África. Assim como Dandara, sua história começou a ser contada a partir do casamento. Era esposa de José Piolho, o líder do Quilombo de Quariterê que ficava localizado onde hoje é a fronteira entre Mato Grosso e Bolívia.


Até que Piolho foi assassinado por soldados do Estado e Tereza assumiu o controle do abrigo. Daí em diante ela ficou responsável por questões políticas, administrativas e econômicas do local.


Sua maior marca foi criar um sistema de defesa e um Parlamento. Haviam reuniões semanais em um casa separada especificamente para isso, onde se discutiam itens que iam, desde o cultivo, a estratégias de proteção.


A base do seu sistema de defesa era a troca de armas feita com os brancos ou roubadas de vilarejos vizinhos. Os objetos, que antes eram usados para machucar os negros, nas mãos do povo de Tereza se tornavam instrumentos de trabalho, a partir da fundição do ferro.



Morreu em 1770, após ter sido capturada por soldados num ataque ao quilombo. Partiu envolta em incertezas, deixando especulações e espaço para diversas narrativas sobre causa de seu falecimento.


Há quem fale que foi suicídio, execução ou doença. Registros mostram que após sua captura: “em poucos dias expirou de pasmo. Morta ela, se lhe cortou a cabeça e se pôs no meio da praça daquele quilombo, em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a vissem”.


Sobreviventes que escaparam reconstruíram o quilombo guardando o legado de sua rainha, resistiram até sua extinção em 1795.


Ela é um marco e mesmo com todos os seus feitos é esquecida na história do país que escolheu exaltar os homens e esconder as lutas das mulheres. Mas heroínas como Tereza persistem as adversidades e derrubam o patriarcado.



“Havemos de comer marotos com pão,

dar-lhes uma surra de bem cansanção,

fazer as marotas morrer de paixão.”


(MARQUES, 1921, p. 236)


Armada com urtiga e seguida por suas vedetas mostrou aos portugueses o que acontece com quem ousa invadir seu território.


Foi peça fundamental para a independência da Bahia. Apesar da independência ter sido proclamada no Brasil em sete de setembro de 1822, os portugueses ainda resistiam e atacavam solo o baiano, especialmente pelo mar e em Itaparica que “destacava-se como um bastião na entrada da baía, nenhum navio entrava ou saia, seja pela Ponta do Padrão ou pela Ponta dos Garcez sem ser notado e, mais importante, ficava fora do alcance dos canhões das fortalezas.” A batalha durou até dois de julho de 1823.


Enquanto a luta persistiu Maria Felipa de Oliveira fez o que pôde para enfraquecer as tropas de Portugal. Ela liderou um grupo de 40 mulheres, as vedetas, que contavam com a ajuda de negros e índios. Elas organizaram o envio de mantimentos para o Recôncavo, vigiavam a praia para impedir invasões e participavam ativamente dos combates.



Não faziam uso de armas de fogo e sim de peixeiras, sedução e galhos de cansanção. Atraiam os portugueses, a quem chamavam de ‘marotos’, para a praia e faziam com que eles tirassem as roupas, lhes batiam com cansanção, uma planta que dá coceira. Tudo isso enquanto outra parte da equipe ateava fogo aos barcos com tochas feitas de chumbo e palhas de coco. Durante os embates seu grupo incendiou inúmeras embarcações. Uma delas foi a Caminhoneira Dez de Fevereiro em 1° de outubro de 1822.


O que hoje sabemos sobre Maria Felipa foi passado de geração em geração por moradores de Itaparica, eles alimentaram seu legado durante anos apenas pelo boca-a-boca.


Não há certeza sobre o dia do seu nascimento, mas de acordo com depoimentos, o local foi a Rua das Gameleiras. Afirmam também que ela morou num casarão que se chamava “convento” localizado na Ponta das Baleias. No espaço também moravam pescadores, marisqueiras, armadores e etc. Profissões essas que ela também exerceu para se manter, como marisqueira no comércio de baleias e ganhadeira (Aquele que trabalha em qualquer lugar para sobreviver).

Mesmo após a Bahia conseguir a independência, Maria Felipa continuou lutando. Juntamente com seu grupo, ela lutava pelos ideais da população, deixando claro que a independência foi apenas uma batalha, não a guerra em si. Morreu em quatro de janeiro de 1873 e seguiu sendo amada por todo o povo de Itaparica.


A guerra persiste até hoje e é contra todos que insistem em diminuir as histórias de mulheres como ela, Madalena, Dandara e Tereza. Elas não puderam contar suas histórias, mas são inspiração para que outras o façam e quem sabe até criem uma nova realidade literária.



“Canta, poeta, a liberdade, - canta.

Que fora o mundo sem fanal tão grato...

Anjo baixado da celeste altura,

Que espanca as trevas deste mundo ingrato.

Oh! sim, poeta, liberdade, e glória

Toma por timbre, e viverás na história.”


Professora, abolicionista e escritora. A última heroína de hoje trouxe esperança para as crianças e uma revolução na literatura nacional.


Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista do Brasil nasceu em 11 de outubro de 1825 na Ilha de São Luís, no Maranhão. Sua verdadeira fisionomia é desconhecida, as imagens que temos hoje são idealizações, assim como fazemos ao ler um livro e criamos uma imagem mental do personagem.


Por não existirem registros seus, nem descendentes, por muito tempo foi confundida com Maria Benedita Câmara, uma escritora gaúcha e branca.


(Foto de: Régia Agostinho - A pintura ficou na Câmara de Vereadores de Guimarães até 2012)


Grande parte da sua vida é uma incógnita, um mistério, pois era extremamente reservada e não permitia que muita gente se aproximasse.


Aos cinco anos mudou-se para Guimarães, onde morava com a avó, a mãe e a irmã. Adorava ler e se alfabetizou sozinha, não somente no português, como também no francês.


Em 1847 foi a primeira mulher da região a passar num concurso para professora do ensino infantil e se negou a andar num palanque em cima das costas de escravos, afirmando que eles não eram bichos.


Conseguiu fazer tudo que Madalena Caramuru sonhava no séc. XVI enquanto defendia os mesmos ideais de Dandara.


Até 1880 ela trabalhou como professora de primário e no mesmo ano fundou a primeira escola mista do Maranhão, em Mariçó e alfabetizava crianças gratuitamente.


Por quebrar esses tabus sociais, era vista com maus olhos. Sua escola foi fechada em 1883, porque a população da cidade ficou escandalizada ao ver meninos e meninas dividindo o mesmo ambiente.


Maria Firmina incomodava, por ser negra, mulher e explicitamente contra aos padrões escravocratas e machistas da época.


Como abolicionista que era, escreveu vários textos para jornais locais deixando óbvia sua posição. Seguindo essa visão e se mostrando contra o patriarcado escreveu seu livro: Úrsula.


"Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem; com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo." (ÚRSULA, 1859)

Úrsula, escrito em 1859, foi considerado o primeiro livro brasileiro a criticar a escravidão do ponto de vista dos escravos, superando autores como Castro Alves.



Após passar anos "apagada" da história, sua obra foi resgatada em 1962 por Horácio de Almeida, um historiador paraibano, em um alfarrábio no Rio de Janeiro.


A última página do livro da sua vida se deu em 11 de novembro de 1917, após passar toda a sua vida dedicada a ensinar, seja como professora ou como escritora.


Seu epílogo se dá até hoje, quando cada uma de nós recontar sua história, tomar seus ideais como inspiração e não se calar perante a nenhum regime opressor.




Minha maior fonte de pesquisa e inspiração para produção desse material foi o livro Extraordinárias: Mulheres que revolucionaram o Brasil de Arayane Cararo e Duda Porto de Souza.



CONTEÚDO EXTRA






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