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As Guerreiras da Terra do Samba

  • Foto do escritor: thatyanabeatrizfer
    thatyanabeatrizfer
  • 2 de dez. de 2020
  • 13 min de leitura

Atualizado: 9 de jun. de 2021

Neste texto, iremos conhecer cinco guerreiras que viveram no Brasil no surgimento da democracia e nessa mesma época, cantar era imoral, pelo menos se você fosse uma mulher.


Com as Guerreiras da Terra de Vera Cruz entendemos que nossas histórias foram escritas por homens que optaram por ‘apagar’ grandes mulheres negras que eram peças importantes na narrativa. Cabe a nós trazer a tona tudo que foi escondido.


Portanto dando continuidade a reescrita da história, nesse segundo texto vamos seguir com a viagem pelo país e por nossas raízes. Aqui, nada será ‘abafado’ e nossas guerreiras serão reconhecidas.



Cantar. Amar. Viver do seu trabalho. Você considera alguma dessas coisas imoral?


No meio do século XIX tudo isso que foi citado - e mais um pouco - era visto com maus olhos pela sociedade conservadora, ainda mais se você fosse uma mulher abolicionista e disposta a ultrapassar todo e qualquer padrão social.


Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, nasceu em 1847 no Rio de Janeiro. Sua mãe, Rosa Maria, filha escravos e solteira quando conheceu José Basileu, um marechal que assumiu a guarda de sua filha. Chiquinha foi criada na elite. Estudou piano, latim, ciências e português, sendo ensinada também a apreciar ópera, valsa e tango. Toda a educação que recebeu foi voltada para que se tornasse uma dama da sociedade, para que fosse ‘bela, recatada e do lar’.


Com 16 anos lhe arrumaram um casamento com Jacinto Ribeiro do Amaral, um dono e comandante de um navio, ao qual ela não amava. Aos 17 anos teve seu primeiro filho, João Gualberto e um ano depois, em 1865, nasceu Maria sua segunda filha.


Os ideais de Jacinto iam de encontro aos de Chiquinha, ela abolicionista - chegou a vender uma de suas composições para libertar o músico negro José Flauta e doou outros rendimentos a causa - , ele por vezes transportava escravos. Ela aspirava a música, ele detestava vê-la envolvida no ramo musical. A proibiu de tocar e por causa disso ela o deixou, mas assim que saiu de casa com seus filhos, descobriu que estava grávida e regressou ao lar. Seu terceiro filho, Hilário, nasceu em 1870.


Tempos depois, frustrada por não seguir seus sonhos e por estar em um casamento sem amor, trocou seu marido pela música e o preço foi perder a guarda dos seus filhos que ficaram com a família de Jacinto. Se divorciar naquela época era visto como um ultraje, e seu ex-esposo, por causa do orgulho ferido, moveu uma ação contra ela no Tribunal Eclesiástico, por abandono e adultério.


Não demorou para ela conhecer o amor, se apaixonou pelo engenheiro João Batista de Carvalho, um Don Juan que adorava música. Com ele, ela chegou a morar em canteiros de obras no interior de Minas Gerais, no Rio de Janeiro eles foram extremamente julgados. Os olhares tortos da sociedade carioca ela aguentava, só não suportava a infidelidade de João. Fez suas malas e o deixou, foi morar em um porão e viver do que mais amava: a música. Levou sua filha Alice, fruto dessa segunda relação. Mas assim como aconteceu com seus três primeiros filhos, ela perdeu a guarda de Alice, pois por ser mulher, nenhum direito lhe era assegurado na época.


Para se manter deu aulas de piano e idiomas, também tocava em festas, cabarés e rodas de choro. Outra maneira que ela tinha de conseguir dinheiro era com a venda de suas composições de porta em porta. Sua primeira música foi a polca “Atraente”, lançada em 1877. Música essa que abriu as alas para ela no ramo musical. Ela encontrou pedras pelo caminho, uma delas foi ao lançar sua música “Aperte o Botão”, que foi proibida por Floriano Peixoto, que até pediu sua prisão por ser irreverente demais.


Dentre os feitos e escândalos de Chiquinha Gonzaga ela musicou inúmeras peças de teatro, foi maestrina - termo que não existia, já que a profissão só era exercida por homens. Tocou violão, instrumento que não era bem visto pela elite. Compôs maxixes, ritmo que era tido como obsceno porque a dança era ‘agarradinha’. Foi a primeira mulher a reger um concerto exclusivo de violões, em 1887, um ato de coragem, já que nessa época também era proibido fazer serenatas.



Se você a conhece através de minisséries e filmes que retratam sua vida, deve se espantar com o fato dela estar nesse compilado de mulheres, já que nessas produções televisivas ela sempre foi representada como uma mulher branca. O que você pode não saber é que assim como Maria Firmina de Oliveira ela foi embranquecida pela sociedade.



Abriu um novo cenário na música brasileira, num momento em que a moda era tocar ritmos estrangeiros. Fez isso com a marchinha “Ó abre Alas”, feita para o carnaval de 1899 a pedido do Cordão Carnavalesco Rosa de Ouro. A marchinha é até hoje um marco de todos os carnavais do Brasil. Fez turnês em Portugal, Espanha, Itália, Alemanha e vários outros países europeus, mas apesar da fama, não lucrou com as viagens internacionais.


Para ajudar na regulamentação do direito dos artistas, ela fundou 1917, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Nessa época, já no séc. XX, tinha encontrado um novo - sendo esse, seu mais longo - amor: João Batista, que era 36 anos mais novo do que ela, gerando outra polêmica, ele tinha 16 e ela 52. Ela o registrou como filho para diminuir a falação. Viveu o suficiente para ver seu trabalho ser valorizado, foi acompanhada por João até o seu último suspiro. Morreu em uma antevéspera de carnaval, em 28 de fevereiro de 1935. Quase poético.


(Sua ultima foto)


Chiquinha se tornou popular por ser quem era e por não ter medo do que defendia, era sinônimo de autenticidade e liberdade. Sua vida foi a comissão de frente, para que hoje outras mulheres pudessem viver as suas maneiras e cantar seus ritmos em qualquer carnaval.



Ela foi significado de mudança por onde passava. Sendo escritora, professora, jornalista ou política. Independente da área em que atuou, em todas elas seu grito era o mesmo: melhorias na educação e direitos das mulheres.


Antonieta de Barros nasceu na cidade Desterro, atual Florianópolis, em 11 julho 1901. Na sua certidão só aparece o nome de sua mãe, Catarina Waltrich, uma escrava liberta. Mulher que foi seu modelo de resistência e luta, assim como sua irmã Leonor.



Aos 17 anos ingressou na Escola Normal Catarinense concluindo o curso em 1921. Para as mulheres, não lhes era permitido ensino superior, quebrar essa barreira era uma das lutas de Antonieta. Um ano depois, fundou o Curso Particular Antonieta de Barros, onde dava aulas de Português e Literatura para crianças carentes. Dirigiu o curso até sua morte e ele foi fechado em 1964. Também foi professora e diretora do atual Instituto da Educação.


Um dos seus grandes marcos é ter sido a primeira mulher negra a ser eleita deputada estadual do Brasil em 1934, sendo também a primeira deputada mulher de Santa Catarina pelo Partido Liberal Catarinense. Sua eleição aconteceu menos de meio século depois da abolição da escravatura, e o cenário do Brasil era marcado pelo preconceito em relação à classe, cor e gênero.


“Mulher na política, em nosso país sempre as houve. Não há novidade pois, a não ser que abandonam os bastidores, para se apresentarem em público.” Foram palavras suas que saíram em um jornal no ano de 1932, quando as brasileiras finalmente adquiriram o direito ao voto. Ela defendia a conquista desse direito negado até então as mulheres.



Acreditava no poder da educação e no quão ela pode ser libertadora, tanto que essa era sua bandeira política. Foi constituinte em 1935 e ficou responsável pelo desenvolvimento dos capítulos Educação, Cultura e Funcionalismo. Atuou na assembléia legislativa até o início da ditadura do Estado Novo em 1937.


Com o término da ditadura veio um novo mandato de Antonieta. Foi eleita novamente em 1947, desta vez como suplente, pelo Partido Social Democrático. E seguiu lutando pela educação e valorização do magistério.



Ela não lutava só nas assembleias e salas de aula. Também defendeu a cultura. Fundou e dirigiu o jornal A Semana, entre os anos de 1992 e 1997. Neste jornal ela publicava suas ideias revolucionárias ligadas a educação, suas crônicas e propostas políticas.


Nas edições do folhetim ela também falava da condição feminina e do preconceito racial. Em 1930 Antonieta dirigiu a revista quinzenal Vida de Ilhoa, além de publicar artigos em jornais locais com o pseudônimo de Maria da Ilha. Pseudônimo esse que ela utilizou para assinar seu livro Farrapos de Ideias em 1937.


Faleceu no dia 18 de março de 1952, deixando para nós seu legado de revolucionário. Se hoje existem mulheres negras na política e nos ensinos superiores é porque Antonieta começou a construir essa trajetória. Ela foi o estopim de uma guerra contra a opressão que precisa ser vencida todos os dias.



Você conhece alguém que é incansável? Que não desiste de uma causa nem quando tudo, até mesmo a legislação, está contra?


Caso não conheça, te apresento agora Laudelina Campos Melo. A filha de Sidônia e Marco Aurélio nasceu em 12 de outubro de 1904 em Minas Gerais, na cidade de Poço de Caldas. Menos de vinte anos separam seu nascimento da abolição da escravatura.


Desde criança ela que fazia as tarefas de casa e cuidava dos irmãos. Deixou a escola cedo, cursando até o terceiro ano, porque sua mãe precisava trabalhar e por conta disso passava o dia na casa da família Junqueira, que havia sido “proprietária” dos seus avós.


O que também começou cedo na sua vida foi o seu interesse pelas causas sociais, aos 16 anos começou a atuar em organizações ligadas ao movimento negro e foi eleita como presidente do Clube 13 de Maio, associação que encorajava atividades recreativas entre os negros da cidade.



Aos 17 anos, precisando de um sustento, começou a trabalhar como doméstica. Já nos seus 18 anos se mudou para São Paulo e logo em seguida para Santos, onde se casou com Henrique Campos em 1924. Seu marido também participava de causas e lutas sociais, juntos os dois fizeram parte da agremiação Saudade de Campinas, um grupo negro que promovia a cultura.


Continuou trabalhando como empregada doméstica. Percebia diferença do tratamento das pessoas em relação a raça, gênero e classe e como essa diferença afetava, não somente a sua vida, como também a de seus amigos. Inconformada e desejando mudanças, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro em 1936.


Ainda em 1936, no dia oito de julho, fundou a Associação de Empregadas Domésticas de Santos, foi a primeira desse tipo na história do país. Sua principal intenção era garantir direitos trabalhistas para todas da categoria. Com o início do Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial ela não conseguiu muitos avanços na associação, mas apoiou mulheres no âmbito educativo e recreativo, oferecendo também assistência social.



Ela e Henrique tiveram outra filha, Neusa, que faleceu ainda criança. Em 1938, se divorciou e foi morar com seu filho Alaor em Campinas. Continuou trabalhando como doméstica até 1953, quando foi trabalhar em uma pensão e vendia salgados em estádios. Na mesma medida em que trabalhava, se envolvia em movimentos negros que valorizavam a cultura afro.


Mesmo sua vida tendo tomado outros caminhos não esqueceu seu passado e em 1961 fundou, em Campinas, a Associação Profissional Beneficente das Empregadas Domésticas. Seguiu lutando pelos direitos enquanto o país era tomado pela ditadura militar. Realizou congressos nacionais que, em 1970, possibilitaram conquistas que antes eram impensáveis, como: A regulamentação da profissão, direito a carteira de trabalho assinada e acesso à previdência social. Seu exemplo ajudou na criação de outros sindicatos e associações pelo Brasil.


Viajando pelo país pôde conhecer melhor as dores de cada empregada doméstica e fez questão de lhes assegurar seus direitos. Em Campinas, todas as associadas eram alfabetizadas e tinham direito a creche para seus filhos.



Laudelina, ou Vó Nina como passaram a chamá-la quando ficou mais velha, morreu em 1991 e sua casa ficou de herança para a associação. Antes de partir viu que suas lutas valeram a pena, apesar de ainda faltar muito caminho a se trilhar. Em 1988 a Constituição assegurou o 13° das domésticas, licença maternidade, repouso semanal remunerado, dentre outras conquistas. Em Campinas ainda é possível encontrar continuadoras do seu trabalho na Casa Laudelina Campos que está completando 30 anos.


Uma mulher humilde que não se conformou com as adversidades e escassez de direitos. Ela foi atrás e regulamentou toda uma classe trabalhadora que era - em vários âmbitos continua sendo - altamente desvalorizada. Laudelina foi o motivo e o começo de uma nova era, era essa onde mulheres vão sentir vergonha do suor de seu trabalho, nem de suas origens.





Já se imaginou gritando sem sair nenhum som? A vida era assim para Carolina Maria de Jesus. Seu único ‘ouvinte’ era seu diário.


A vida não é fácil para quem mora nos morros e bairros periféricos brasileiros. A sociedade os faz acreditar que crescer - e ser ouvido - não é uma opção. Muitas vezes nem é uma preocupação quando se tem fome e crianças para alimentar. Foi por isso que Carolina começou a escrever, para enganar o estômago, para esquecer que não tinha comida.



“Quem inventou a fome são os que comem.”

(O quarto de Despejo)


Nossa voz do morro nasceu em Minas Gerais, no dia 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento. Morava numa comunidade rural com seus pais, que eram analfabetos, e sofreu com os maus tratos durante a infância. Diferente dos pais, ela aprendeu a ler e escrever quando começou a frequentar a escola aos sete anos. Foi aí que sua paixão pelos livros nasceu.



Se mudou para São Paulo em 1937 após a morte de sua mãe. Dez anos depois estava grávida e desempregada, já nos seus 33 anos, acabou se mudando para a favela do Canindé, na zona norte de São Paulo. Na favela ela começou a trabalhar como catadora de papel e, nos seus momentos livres, escrevia suas dores em cadernos que encontra nos materiais recolhidos durante o dia.


Na década de 1950, o jornalista Audálio Dantas, que pertencia ao já extinto jornal Folha da Noite, foi enviado a Canindé com a função de escrever sobre a vida dos moradores de lá. Durante sua apuração avistou Carolina que estava indignada com o barulho dos outros moradores, pois segundo ela isso a dificultava sua concentração na escrita.


A curiosidade foi o bastante para que ele passasse um tempo imerso nos diários dela e começasse a defender a publicação deles. Mais de seis editoras recusaram a obra que havia sido datilografada por Dantas. Até que a Livraria Francisco Alves Editora aceitou lançar o que seria a primeira publicação de Carolina Maria, Quarto de Despejo: Diário de uma favelada.



“A favela é o quarto de despejo da cidade porque lá jogam homens e lixo, que lá se confundem, coisas imprestáveis que a cidade deixa de lado”

(Quarto de Despejo)


O livro, lançado em agosto de 1960, se tornou um best-seller, vendido em 40 países e traduzido para 16 idiomas. A tarde de autógrafos contou com a presença de intelectuais como Clarice Lispector e foram vendidas mais 600 cópias autografadas, superando Jorge Amado. Mas o maior marco de todo esse evento foi que, nessa tarde, foi a primeira vez que Carolina e seus três filhos - José, José Carlos e Vera Eunice - conseguiram almoçar, jantar e vestir roupas novas, tudo em um mesmo dia.



Por causa da fama do livro ela conseguiu sair da favela e foi morar em Santana com seus três filhos, todos de relacionamentos diferentes, já que ela optou por nunca casar. Empolgada com o sucesso, ela arriscou na música e lançou um disco em 1963, publicou também mais dois livros.


(Biblioteca feita em sua homenagem após sua morte, localizada em São Paulo)


Com a venda de suas obras mudou-se de sua casa em Santana e comprou um sítio em Parelheiros, periferia de São Paulo, onde foi morar com os filhos. No entanto, o lugar estava com poucos recursos, por causa da má administração, gastos excessivos e empréstimos que nunca foram ressarcidos. Por isso, ela e os filhos voltaram a viver numa situação financeira difícil.


Seus minutos de fama acabaram rápido, exploraram sua imagem, sua origem humilde enquanto ela ainda era popular, mas quando a curiosidade passou a deixaram de lado. Mas mesmo com isso, ela não largou a escrita.


“Catei papel, revirei lixo. Do papel também tirei meu alimento: a escrita”.



Morreu em seu sítio, aos 63 anos por causa de uma crise de asma. Antes disso, entregou seus escritos a jornalistas franceses e partir desses manuscritos puderam publicar seu livro póstumo: Diário de Bitita, que retrata a sua infância e luta contra o preconceito social e a miséria. Ela também escrevia poemas, contos e cartas que foram veiculados em jornais locais, usava como temática o racismo, a política, o amor e etc.


Carolina é a voz do morro, mas nós temos que ser o eco, não só dela como de todos os moradores de periferias e áreas marginalizadas. A missão que nos foi deixada é de que nunca deixemos esse grito que ecoa silenciar.



“O negro é a raiz da liberdade.”


Se todo mundo parasse para escutar essa frase e entendesse que não se pode aprisionar alguém por ter mais melanina no corpo, o mundo seria um lugar com pessoas mais humanas.


Dizem que quem canta, seus males espanta então o que acham de espantar o racismo e preconceito cantando a vida de Dona Ivone Lara?


Seu nome de batismo é Yvonne da Silva Lara. Filha de Emerentina, que era cantora de rancho, e de João da Silva Lara, um mecânico de bicicletas, componente do Bloco dos Africanos e violinista. Aos seis anos perdeu os pais e foi estudar no internato do colégio Orsina da Fonseca. Quando entrava de férias ficava na casa de seu tio Dionísio.



Um dos primeiros contatos da Dama do Samba com a música foi nesse internato, através de Lucília Guimarães Villa-Lobos, que além de esposa do maestro Heitor Villa-Lobos era professora de música. Ivone ganhou a admiração de Lucília e de Zaíra Oliveira, ambas suas professoras, nos seus 13 anos acabou sendo indicada para a cantar sob a regência do Heitor Villa-Lobos no Orfeão dos Apinacás.


“Aprendi a cantar, a dançar e a gostar”

(Ivone sobre o samba)


O tio de Ivone tocava violão de sete cordas e fazia parte do grupo que reunia Pixinguinha e Donga, com ele, ela aprendeu a tocar cavaquinho e por causa dele estava sempre rodeada de samba. Em meados de 1940 se mudou para Madureira, o “berço do samba”. Nesse período ela se formou em enfermagem e assistência social, se especializando em terapia ocupacional chegando a trabalhar com Nise da Silveira.


Ainda na década de 40, ela frequentou a Escola de Samba Prazer da Serrinha, compôs vários sambas para a escola. Porém, todos eles eram apresentados por seu primo porque o preconceito não tornava bem visto uma mulher sambista. Em 1947 casou-se com Oscar Costa que era filho do presidente da escola de samba ao qual ela fazia parte.



A liderança de seu sogro na Prazer da Serrinha não agradava e gerava discórdia nos integrantes, por não ser democrática, foi baseada nessa insatisfação que nasceu a escola Império Serrano, lugar onde a fama de Ivone também nasceu, ela finalmente teve espaço de mostrar a quê veio. No mesmo ano da fundação da escola ela compôs o samba “Nasci para Sofrer”, que embalou a agremiação na avenida, tudo enquanto ainda trabalhava no hospital, trabalho do qual só se aposentou no final de década 1970.


Em 1965 ela escreveu, junto com Silas de Oliveira e Bacalhau, “Os cinco bailes tradicionais da história do Rio”, foi o primeiro samba-enredo de uma escola de elite assinado por uma mulher no Rio de Janeiro.


No ano de 1970 passou a ser chamada de Dona Ivone Lara pelo seu produtor, em sinal de respeito e para dar um toque brasileiro ao nome de batismo. Nesse mesmo ano gravou seu primeiro disco, Sambão 70, pela gravadora Copacabana. Em seu shows deu espaço ao jongo, um ritmo afro-brasileiro. Sendo versátil participou de programas como o do Chacrinha e estrelou filmes.


Nunca foi um sucesso de vendas, mas lançou mais de dez discos, com músicas que foram regravadas por grandes nomes da MPB como Maria Bethania e Beth Carvalho. Sua composição, “Sonho Meu”, se tornou um hino pós-anistia na ditadura. No centenário do samba em 2016 ela recebeu a Ordem do Mérito Cultural.



Nossa Dama do Samba escancarou as portas que Chiquinha Gonzaga começou a abrir, mostrou que lugar de mulher é onde ela quiser e não abaixou a cabeça para quem ousou lhe dizer que o samba não era seu lar.


Obs: Minha maior fonte de pesquisa e inspiração para produção desse material foi o livro Extraordinárias: Mulheres que revolucionaram o Brasil de Arayane Cararo e Duda Porto de Souza.



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