Do racismo ao antirracismo: Djamila Ribeiro discute os privilégios da branquitude em best-seller
- Matheus Xavier

- 17 de jul. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 20 de jul. de 2020
Em seu livro mais recente, a autora ilustra e contextualiza a necessidade da construção de uma sociedade antirracista
Por Sérgio Francisco
Pergunta rápida: Você se considera racista? É bem provável que a resposta seja "não", muito embora porventura reconheça que no Brasil o racismo é uma realidade. Ou, ainda, que conhece pessoas que têm visões, posicionamentos e atitudes racistas. Mas, você? Racista? Nem pensar…

Djamila Ribeiro posa ao lado de seu livro Pequeno manual antirracista. (Foto: Mundo Negro/Reprodução)
É com base em uma pesquisa histórica realizada pelo Datafolha, em 1995, que Djamila Ribeiro inicia um de seus mais emblemáticos trabalhos. Através dele a autora nos faz o convite de reconhecer o fato muito provável de que sejamos todos racistas. Isso porque das 5.081 pessoas entrevistadas maiores de dezesseis anos, em 121 cidades de toda a federação, 89% dos brasileiros admitiram existir preconceito de cor no Brasil. Mas, 90% se identificavam como não racistas.
Mulher negra, ativista, feminista e mestre em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ribeiro afirma que, uma vez pertencentes a uma coletividade que, historicamente, estigmatiza homens, mulheres e crianças unicamente pela cor da sua pele, é natural que estejamos propensos a reproduzir e perpetuar tal prática.
Por mais que às vezes façamos o possível e tentemos a todo custo escamotear essa realidade sistêmica, o status quo, de acordo com Ribeiro, é estruturalmente racista: do lugar de inferioridade atribuída às práticas culturais de matriz africana ao tímido quantitativo de pessoas de cor em posições de privilégio no país. E quando comparado à porcentagem de pessoas não-negras nesses mesmos espaços de poder, torna-se visível ao olhos que o racismo ao nosso redor dita regras e abandona a população negra à marginalidade. Essas e outras questões ficam expostas no 'Pequeno manual antirracista' (2019) da filósofa.

Ativista negra em protesto pela morte de George Floyd. (Foto: akeemdewan/Instagram)
Com o assassinato por asfixia do afro-americano George Floyd, 46, por agentes da polícia norte-americana de Minneapolis, em maio deste ano, o movimento internacional Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), fundado em 2013, nos EUA, ganha força e leva milhares de pessoas às ruas. Orquestrados pelas redes sociais, os protestos contra a truculência policial aconteceram com maior participação civil nos Estados Unidos. No entanto, esses atos tiveram adesão de outros países ao redor do mundo em que a população afrodescendente vive uma realidade semelhante; como é o caso do Brasil.
No mesmo período, assistimos à morte de João Pedro, um garoto de apenas 14 anos, baleado dentro de casa enquanto brincava com os primos, durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ). Dessa maneira, mostrando-nos que um dos preceitos do racismo está diretamente atrelado aos aparelhos de repressão do Estado.

João Pedro foi assassinado durante ação policial no Rio de Janeiro. (Reprodução: hypeness)
Através de perfis nas redes sociais, influenciadoras e intelectuais negras lamentaram mais uma morte provocada por policiais nas favelas do Rio de Janeiro e promoveram atos contra o uso descabido da força policial no estado. Após ser atingido, o menino foi sequestrado pelos agentes e colocado em um helicóptero da Polícia Civil. A família localizou o corpo dias após o "incidente", já no Instituto Médico Legal (IML).
Gleici Damasceno, campeã do ‘BBB 18’, diz que as balas perdidas “têm sempre o mesmo alvo”. “João Pedro era só uma criança brincando dentro de casa. Essas balas perdidas têm sempre o mesmo alvo. A carne mais barata do mercado é a carne negra”, dispara a influenciadora digital.
“Enojante, tudo muito revoltante. Existe uma guerra contra a população negra desse país. João Pedro, presente”, escreve a própria Djamila Ribeiro. Confira:
É com o intuito de analisar essa "política da morte" no Brasil e subverter sua lógica de operação que Djamila Ribeiro dá à luz o seu manual. E, como todo bom livro direcionador, a obra em questão estipula estratégias de como realizar mudanças substanciais de modo a reduzir as diferenças sociais motivadas por uma questão de cor e descendência entre brasileiros, os quais são, em sua maioria, negros.
Até o último dia 28 de junho, ‘Pequeno manual antirracista’ se mantinha no topo da lista dos livros de não-ficção mais vendidos no país pela terceira semana consecutiva. Alternando entre primeiro e segundo lugar da lista com Sapiens: Uma breve história da humanidade (2014), de Yuval Noal Harari, a obra de Ribeiro era a segunda mais vendida até a publicação deste texto.
Em linhas gerais, como já vimos acima, a escritora não só nos convida a nos reconhecer racistas em potencial, mas a localizar situações, falas e posicionamentos em que o racismo se faz presente. Aconteça de forma escancarada ou velada, é uma convocação para atuarmos abertamente contra o racismo, isto é, sermos antirracistas.
O momento é, como nunca antes na história do país, muito propício a discutir amplamente as questões abordadas por Djamila Ribeiro em sua obra. Com posicionamento direto, sábio e didático, a autora presenteia o leitor com uma verdadeira aula sobre como se encontra, vive e é tratada a população negra no país. Além disso, expõe quais são seus direitos resguardados pela Constituição Federal de 1988 — nem sempre aplicados perante à lei —, suas pensadoras, pensadores, bem como reais expoentes na luta antirracista.





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