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Tal qual o amor, as palavras marcam para uma vida inteira

  • Foto do escritor: Marcondes Augusto
    Marcondes Augusto
  • 30 de jul. de 2021
  • 2 min de leitura

‘A palavra que resta’ conta a história de um analfabeto de 71 anos que guarda carta deixada pelo grande amor de sua vida


Por Marcondes Augusto


Em seu primeiro romance, Stenio Gardel, traz consigo a excelência da vanguarda numa narrativa contemporânea, obra da qual já considero um clássico. Emocionante do começo ao fim, ‘A palavra que resta’ cultiva incógnita no leitor sobre carta misteriosa enquanto discute mazelas contemporâneas.

Livro 'A palavra que resta' disponível em forma física e digital. (Foto: Alisson/Eu já li)

O analfabetismo do protagonista dá o pontapé inicial para uma jornada plural e intrigante. Raimundo é um jovem analfabeto no sertão do Brasil e trabalha na roça, lá conhece Cícero e após se apaixonarem nutrem um amor proibido que depois de algum tempo é descoberto pelos pais. Seus parentes reagem de forma violenta e preconceituosa ao relacionamento dos dois e devido às circunstâncias, eles precisam se separar. Cícero parte sem deixar rastros, mas antes escreve uma carta para Raimundo.


A partir disso, acompanhamos o protagonista numa jornada de descobrimentos - a dor devido a repressão de sua sexualidade e o seu anseio aos 71 anos, de aprender a ler para descobrir o que Cícero lhe escreveu.


Numa narrativa não linear e cheia de fluxos de pensamentos, somos levados a refletir a respeito de LGBTfobia, auto aceitação e a importância dos vínculos de afeto na vida de pessoas LGBTQIA+.


Assim como Macabéa de ‘A hora de estrela’ de Clarice Lispector, Raimundo carrega consigo o fardo da falta de oportunidades no mundo moderno. Mas ao contrário do personagem que tem seu final trágico, o protagonista de Gardel tem sua narrativa mais generosa, mesmo com tantas faltas, uma perspectiva de futuro possível.


Muito da história contada pelo autor perpassa a ficção e a realidade. A violência sofrida pelos personagens homossexuais e transexuais é uma realidade assustadora no mundo contemporâneo e o Brasil segue no topo da lista de países que mais matam pessoas LGBTQIA+ no mundo.


Com isso percebemos a urgência de uma nova educação sexual mais libertadora onde a compaixão adentre o lugar da violência, que se repete hereditariamente devido a ignorância e o medo. Fato retratado no livro, quando Damião, pai de Raimundo, reproduz a violência homofóbica que presenciou em sua adolescência, sofrida por um parente que amava.

Capa livro de Stenio Gardel. (Foto: divulgação)

Ao longo de pouco mais de 100 páginas, o autor conjuntamente evoca uma indagação pertinente sobre masculinidade e machismo. Assim como JJ Bola, que em seu livro “Seja Homem” explica que masculinidade é uma performance cultural e não tem nada a ver com orientação sexual, os personagens homossexuais da obra, mergulham numa jornada de autodescoberta e tentam se entender como homens num mundo patriarcal.


‘A palavra que resta’ transforma em poesia uma história tão verdadeira que provoca no leitor a indagação se realmente ler-se uma ficção. Uma obra sobre palavras não ditas, e o quanto cada um está disposto a enfrentar em troca de ser quem realmente é, além das consequências das escolhas que fazemos ao longo da vida e que definem nosso futuro, e Raimundo escolheu ser feliz.


Informações adicionais


Título: A palavra que resta

Autora: Stenio Gardel

Editora: Companhia das letras

Ano de publicação: 2021

Páginas: 160


1 comentário


LAYS SANTOS
LAYS SANTOS
31 de jul. de 2021

Muito bom 😍😍😍

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