Educativo e político: as perspectivas sobre o documentário do Emicida, ‘AmarElo - É Tudo Pra Ontem'
- xaviercivic
- 27 de jan. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 1 de fev. de 2021
A história do artista contada com animações, vídeos pessoais e o processo de composição e produção das músicas do seu último álbum, a partir dos contextos históricos do país dentro do cenário musical
Por Matheus Xavier
O documentário seria para os fãs apenas um registro da produção do álbum vencedor do Grammy latino de ‘melhor disco de rock ou música alternativa em língua portuguesa’. Mas impressiona pela peculiaridade de não falar apenas da obra do Emicida, mas sim sobre a vida em comum do artista com a história de muitas crianças das periferias do Brasil.
Emicida durante apresentação no Theatro Municipal de São Paulo. (Foto: Jef Delgado)
De início, o DOC confronta o público com duas citações. A primeira apenas escrita na tela, com uma frase de um dos autores mais consagrados da literatura brasileira - Mário de Andrade. Já a segunda, narrada agora por Emicida, traz um ditado iorubá em que cita Exu - entidade cultuada em religiões de matriz africana - como resumo do que ele, como artista, tenta fazer a cada trabalho.
"Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje."
O rapper vai além, porque para ele não tem como ser Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, sem antes contextualizar e apresentar a história do Brasil a partir da realidade de homens e mulheres pretas. Que são, atualmente, o principal incentivo para construção da consciência artística, política e mental para produzir e escrever ‘AmarElo - É Tudo Pra Ontem’.
E quem assiste, também precisa se entregar a experiência de ouvir e aprender incansavelmente sobre a real história por trás dos livros didáticos brasileiros. De como a escravidão, o descobrimento/invasão e o desenvolvimento do Brasil é pautado a partir da perspectiva de pessoas brancas, elitistas e euro centristas.
Com apontamentos iniciais, o filme documental separa em pequenos resumos os pontos que precisam ser entendidos para que o trocadilho Amar + Elo seja compreendido artística e politicamente.
Explica didaticamente como os processos de dominação branca acabaram por “direcionar” a população preta para regiões não centrais das cidades e capitais do país, como forma de isolar e segregar a circulação em certos locais.
Sendo a consequência e motivação (até os dias de hoje) da omissão, opressão e principalmente apagamento do movimento negro e indígena. O que reflete em estudiosos e teóricos importantes para a construção intelectual e musical do país como Lélia Gonzales, Pixinguinha, Dona Ivone Lara, Donga, Luís Gama, Ruth de Souza, Heitor dos Prazeres, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho, Riachão, Clara Nunes, Jair Rodrigues, Cartola, Toniquinho Batuqueiro, Luiz Carlos da Vila, Mestre Marçal, Jorge Aragão, Adoniran Barbosa, Johnny Alf , Wilson das Neves, Leci Brandão, Wilson Simonal, entre outros que foram e ainda são ignorados não apenas nos livros, mas pela classe de intelectuais brasileiros.
Artistas e intelectuais que documentário reverencia. (Captura de tela)
Sem esquecer da música, óbvio, Emicida apresenta a origem e ascensão do Rap e Hip-hop no Brasil. Os ritmos dominantes que se espalham e ganham as periferias nos quatro cantos, como também proporção e força por se tornar um movimento de conscientização sobre a desigualdade social e o racismo.
Vendendo e lucrando milhões, é impossível ignorar a potência artista das letras e produções vinda do rap, o que impulsiona aos poucos, o diálogo e discussão da classe operária para com as ideias dos intelectuais negros.

Exibição dos artistas do Rap nacional mais buscados em 2019. (Captura de tela)
CONSTRUÇÃO MUSICAL
Estamos falando de um artista e da divulgação do seu trabalho. Portanto, durante todo o filme os registros em vídeo, foto, depoimentos e animações explicam e refletem todo o processo criativo, composição das letras e gravação do 10º álbum do Emicida intitulado com o mesmo nome - AmarElo.
Álbum disponíveis nas principais plataformas digitais.
Com a finalização do projeto, o cantor mostra trechos do show de lançamento, no Theatro Municipal de São Paulo. Sem esquecer das referências presentes no álbum, o filme utiliza animações que são essenciais para compreensão do público, para ilustrar o contexto histórico de personalidades e artistas brasileiros.

Ilustrações e animações completam o documentário para compreensão dos assuntos apontados. (Captura de tela)
REPRESENTAÇÃO E AUTOCONHECIMENTO
Presente em todo DOC, o foco é a responsabilidade da história brasileira em ter apagado e negado a importância de pretos nas diversas áreas de atuação do país.
Emicida exemplifica como reconhece sua ancestralidade com todas as personalidades negras presentes em seus discursos, músicas e posicionamentos.
Possibilita quem assiste sair da zona de conforto, enxergar os reais privilégios coletivos e individuais. Além das desigualdades presentes nas comunidades e relacionamentos, confronta preconceituosos ao colocar holofote principal na música que intitula o álbum, duas artistas LGBTQI+ como Majur e Pabllo Vittar.
Emicida e convidados. (Fotos: Jef Delgado)
Leque aberto para desconstrução de homens e mulheres héteros em sua maioria tem a possibilidade de assinar Netflix e refletir sobre questionamentos feitos no filme.
“AmarElo - É Tudo Pra Ontem” é uma obra em aberto, atemporal, didática e objetiva. Gigante e importante o suficiente para relembrar os erros do passado e ser uma bússola de orientação e incentivo ao futuro em sociedade, desde que seja um hábito o questionamento individual e coletivo diante do racismo estrutural presente na sociedade.



























































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