POR QUE A REPRESENTATIVIDADE LGBTQI+ NOS DESENHOS INFANTIS É NECESSÁRIA?
- carolinemmpeixoto
- 28 de jun. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 29 de jun. de 2020
Uma timeline de onde começamos, até a mais recente das representações mais impactantes no mundo dos desenhos infantis.
Texto de Caroline Peixoto.
Esse texto contém spoilers.
Apesar de alguns problemas com esse tipo de representação em novelas brasileiras (assunto que a gente pode conversar depois, porque precisamos), quando se trata de séries e filmes, estamos caminhando para um bom resultado. É uma caminhada lenta, mas um dia vamos chegar em um mundo onde uma série terá mais do que a cota de um personagem lgbt.
Ainda estamos no mês do Orgulho LGBT, e para não deixar esse mês tão importante passar em branco, vamos levantar uma questão importante: Por que a representatividade LGBTQI+ nos desenhos infantis é necessária?

Divulgação: Netflix/PrimeVídeo
DE ONDE VEM TANTA POLÊMICA?
“Não vou deixar meu filho assistir isso!” “Ainda bem que minha filha não assiste esse tipo de coisa!” “Mas é um desenho de criança!”
Se você está aqui, já conhece esses comentários. Sempre vamos encontrar esses ou alguma variação deles nos comentários de alguma postagem - seja twitter ou instagram - sobre algum personagem figurante beijando alguém do mesmo sexo.
O tema certamente é polêmico. Principalmente, se a gente for levar em consideração o que aconteceu em 2017 entre o Felipe Neto e o Malafaia, só por causa de um beijo entre dois personagens sem nomes em um desenho da Disney. Beijo esse que se piscar, perde.
E olha que estamos falando de personagens figurantes que se beijam em uma cena, no fundo, quase que invisível. Imagina só o quanto isso é amplificado quando são personagens que recebem mais atenção. Ou até mesmo, são os protagonistas!
No ano de 2013, nós nem sonhávamos que desenhos infantis poderiam ter algo mais do que uma ideia de representatividade LGBTQI+. Foram produzidas algumas séries. Tivemos também filmes longos com temáticas pesadas, que geralmente trazem dois enredos, o do casal que não fica junto ou do que morrem por tentar viver o romance. Mas não podíamos reclamar, afinal, é alguma coisa.
REPRESENTATIVIDADE IMPORTA
Então vem 2014. A Lenda de Korra estava transmitindo seu último episódio. O episódio está em seus momentos finais quando a protagonista Korra vira para sua, até então, amiga e pergunta se ela quer tirar férias. Juntas. Sozinhas. Asami - uma dos três principais coadjuvantes da série - aceita.
E essa foi a primeira representação LGBTQI+ clara em um desenho para crianças. Duas protagonistas, andando de mãos dadas até um brilho amarelo e a troca de olhares de forma apaixonada. No entanto, ainda existia a dúvida se as personagens estavam mesmo juntas.
A forma como o desenho terminou foi bem óbvia para muita gente. Mas ainda foi preciso a confirmação dos criadores da série para que acabasse com o burburinho na internet sobre “estão juntas ou não?”.
Depois disso, foram 4 anos sem que trouxessem algo representativamente LGBT na mídia infantil. Tínhamos Korra e Asami, mas o que é um desenho, comparado a todos os outros que mostravam algo tão distante da realidade. Seria necessário esperar mais um último episódio da série para demonstrar tão pouco ou quase nada?
Então no ano de 2018 tivemos mais dois desenhos quebrando essa barreira. ‘Hora de aventura’ e ‘Steven Universo’. Ambas as séries já foram finalizadas. E também tiveram um marco nessa história de representação.

Divulgação: CartoonNetwork
MAS COMO NADA É FÁCIL
Parece ser tudo perfeito, até o momento em que pensamos na dificuldade dos criadores dessas séries para fazer isso acontecer. Existem limites para a proximidade desses personagens nos desenhos. Inseri-los em uma cena, precisaria determinar a linha onde terminava a amizade e se iniciava um relacionamento amoroso. Mesmo se houvesse um, teria que ser muito bem abafado.

Como aqui a gente não abafa nada, vamos jogar essas representações para o mundo e falar sobre elas. Por isso, vamos terminar esse texto falando sobre a mais recente e a maior representação que tivemos.
O BEIJO QUE SALVOU O UNIVERSO
Este ano, no dia 15 de maio, foi lançada a quinta e última temporada de ‘She-ra e as Princesas do Poder’ na Netflix, com ela vieram muitas emoções para os fãs que vinham acompanhando essa série desde o início. O final foi uma vitória na internet. Para quem entrou no Twitter nesse dia, foi louco.
Game of Thrones sonha com um final tão bom quanto esse foi.
Vamos destrinchar isso melhor para caso você não conheça o desenho.
Em 2018 iniciou-se o reboot (reboot é uma nova versão de uma obra de ficção) de ‘She-ra’, e desde sua primeira imagem divulgada, prometia muito. Já começava pelo design bem diferenciado da versão antiga do desenho - o design é infantil em comparação ao sexualizado de antigamente.

Mas não é só isso, no decorrer da série, ela nos mostrava que, talvez, teríamos acontecimentos maiores e mais significantes entre alguns personagens.
Porém, é um desenho infantil. Imagina, a She-ra, princesa guerreira dos anos 80, um símbolo de desejo de muitos homens, com um reboot onde ela tem um relacionamento com sua antagonista. Seria uma afronta das grandes!

Divulgação: Netflix
E foi exatamente o que aconteceu.
“Destruíram a minha infância!” Não, Fábio. Você tem 30 anos, um beijo entre duas personagens de um desenho animado não vai destruir a sua infância. Mas te garanto, vai salvar muitas.
Um contexto, sem spoilers, além do beijo acima: Adora - a She-ra - e Catra cresceram juntas na Horda - o exército do mal. No entanto, Adora sai da Horda quando descobre tudo que acontece no mundo real. Catra não fica muito feliz e depois de várias tentativas falhas, não consegue trazer sua amiga de volta, então decide que serão inimigas. Durante toda a série, Catra - ou Felina se você estiver assistindo na dublagem brasileira - foi a vilã. Até algo que acontece na quarta e na quinta temporada, onde ela tem todo um arco de redenção que a faz enxergar mais abertamente os sentimentos que tinha pela melhor amiga - ou inimiga.
Desde o início da série, tivemos sinais de que isso iria acontecer. Mas acabamos por deixar de lado por medo de se frustrar com mais um queerbaiting. No entanto, desde o início, She-ra criou um universo onde seus personagens não teriam limites quando se tratava da sua sexualidade ou de ser quem são. Foi um universo onde os personagens não precisam de uma história de ‘sair do armário’, eles simplesmente são.
UM FINAL FELIZ
Duas protagonistas encerram a série com um beijo. Em 2014 a gente achava que o que tivemos em ‘A Lenda de Korra’ seria o máximo de representatividade LGBTQI+ entre protagonistas de um desenho animado. E agora tivemos, não só um beijo, mas toda uma história de amor - com direito a declarações, confissões e um “você também merece amor” - entre duas protagonistas.
Apesar de terem sido os que tiveram mais a atenção, essas não são as únicas mídias infantis que têm representação LGBT. Aqui vão algumas que estão indo para um bom caminho: ‘Kipo e as Criaturas Incríveis’; Arthur; ‘Andi Mack’ e mais algumas outras.
Embora a representatividade LGBTQI+ não seja mais tratada como um tabu por muitos, ela ainda é evitada por grandes produtoras de séries e filmes. Nem se compara quando se trata de desenhos infantis. Mas esses exemplos que dei foram algo positivo para esse caminho que estamos tomando. Quem sabe um dia nós não precisemos parar e contar quantos personagens LGBTQI+ tem em uma série? Parece um futuro menos distante agora, não é?
Mas até chegarmos lá, vamos parar para refletir o quão importante essas representações são na vida de muita gente?
Sim, eu chorei com esse vídeo.





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