The Handmaid’s Tale e o seu recheio torturante com discussões necessárias
- carolinemmpeixoto
- 21 de ago. de 2020
- 4 min de leitura
“Alguém disse uma vez ‘Os homens temem que as mulheres riam deles. As mulheres temem que os homens as matem’”
- The Handmaid’s Tale
Texto de Caroline Peixoto

Divulgação: Hulu
“Agora eu estou acordada para o mundo. Eu estava dormindo antes. Foi assim que deixamos acontecer. Quando aniquilaram o Congresso, não acordamos. Quando culparam terroristas e suspenderam a Constituição, também não acordamos. Disseram que seria temporário, mas nada muda instantaneamente.” - June Osborn, The Handmaid’s Tale.
Não é nenhuma surpresa que essa série está por aqui. Uma série que incomoda diferentes públicos, cutuca quem deve cutucar e nos faz questionar decisões tomadas por poderes maiores, precisa estar em mais um texto da Cuscuzeira.
The Handmaid’s Tale é uma série que muita gente vai implorar para que você assista. Você vai começar a ver, vai sentir o impacto dos primeiros momentos e vai refletir se deve continuar assistindo. Sabe a minha resposta para essa pergunta? Continue.
Ela começa por não ser fácil quando aborda assuntos como: Controle da mulher e maternidade compulsória; Dependência Financeira; Heterossexualidade compulsória; Rivalidade feminina; Culpabilização da mulher; Machismo hostil x Machismo benevolente.
Não é nada fácil ter esses assuntos sendo jogados constantemente na nossa cara de uma forma tão crua e brutal. Então, aproveitando o Agosto lilás, que é um mês em que nos conscientizamos sobre a violência contra a mulher, para falar da importância que é assistir e entender essa série.
A série é produzida originalmente pela Hulu e está disponível aqui no Brasil na GloboPlay. Ela é baseada no livro homônimo de Margaret Atwood, O Conto da Aia. O livro foi publicado originalmente em 1985 e teve sua continuação em 2019 com o título de ‘Os Testamentos’.
A série se passa em um futuro distópico - apesar de não ser uma distopia em alguns países - onde os Estados Unidos passou por um ataque terrorista, resultando na morte do Presidente e de grande parte dos políticos. Logo após isso, uma facção católica toma o poder com o intuito declarado de restaurar a paz. O grupo transforma o país na República de Gilead, instaurando um regime totalitário baseado nas leis do Antigo Testamento.
Já posso começar dizendo que não deu certo para as mulheres? Não estou dando spoiler ao falar que elas perderam completamente os direitos. Perderam empregos; Capacidade de pensar por si próprias; Se tornaram financeiramente dependentes dos maridos. Então tudo piora quando elas são divididas em três grupos: Esposa, Martha e Aia.
DIVISÕES POR UNIFORME

Divulgação/Reprodução: Hulu
“A culpa é deles. Nunca deveriam ter nos dado uniformes, se não queriam que fôssemos um exército.” - June Osborn, The Handmaid’s Tale.
As Esposas são as mulheres de homens poderosos em Gilead - chamados de Comandantes. Elas vestem um vestido azul escuro que cobre todo seu corpo, seu cabelo é completamente preso, e só têm um propósito: existir ao lado do seu marido.
As Marthas têm o papel de servas. São mulheres estéreis que cuidam da casa do Comandante. Fazem comida, servem café e também são babás. Vestindo uma manta verde com um avental na cor bege e um pano cobrindo seus cabelos.
E por último, temos as Aias. Tratadas como gado, são todas as mulheres férteis que agora terão o papel de apenas reproduzir. Concubinas que são transferidas de casa em casa daquelas famílias que não conseguem ter filhos. Elas vestem uma longa manta vermelha e um chapéu na cabeça. Chapéu esse que tem a função de impedir que elas tenham um rosto. Uma identidade.
RECHEIO SEM SPOILERS
“Um rato em um labirinto está livre para ir para qualquer lugar, desde que fique dentro do labirinto.” - June Osborn, The Handmaid’s Tale.
A série é contada da perspectiva de June - Interpretada por Elizabeth Moss (Homem Invisível; Us; Mad Man). Uma mulher que perdeu o marido e a filha e foi levada para se tornar uma Aia. Ela é designada para a família Waterford, se tornando a Offred (traduzindo para o português fica ‘de Fred’).
No decorrer da obra, assistimos cada decisão tomada por June e suas fortes consequências que podem acontecer com ela e/ou com outras próximas a ela. Consequências essas que vão de tortura psicológica até a física.
June é uma personagem complicada e muito real. Ela erra, pensa em si mesma, coloca outras pessoas em risco por causa disso. Porém, no momento em que nos colocamos no lugar dela, entendemos o porquê de algumas decisões e, principalmente, o seu desespero para encontrar sua filha.
Afinal, o que uma mãe não faz para ter sua filha sã e salva em seus braços?
É uma série cruel e não esconde isso em momento algum. Vão ter vários momentos em que você vai perder esperanças, vai chorar e vai achar que está tudo perdido. E acontecem reviravoltas. Muitas reviravoltas. Vão ter momentos que você vai aprender a amar personagens e depois será forçado a odiá-los.
Em alguns episódios, a série intercala com momentos do passado, onde tudo estava começando a se tornar da forma que é. A partir dessas cenas, nós começamos a entender porque tais personagens são da forma que são e porque tomam essas atitudes. Não que seja justificativa para alguns, realmente. Mas a gente entende e continua odiando.
NÃO PODEMOS NUNCA CHEGAR NESSE PONTO
“Crie sua filha para ser feminista. Ela passa a vida esperando ser resgatada por homens.” - June Osborn, The Handmaid’s Tale
Não é uma série fácil de ver. Você não vai ficar na expectativa dos próximos episódios, esperando que algo vá dar certo na vida dos personagens. Muito pelo contrário, você vai esperar que tudo dê errado. Que os planos vão falhar e que todo mundo vai sofrer as consequências.
E é por isso que a série é fantástica. Porque no momento em que alguma coisa dá certo, a vontade que você tem é de chorar e sair gritando pela casa, feliz que alguma coisa deu certo. Você nunca vai esperar, mas quando vem, é uma vitória.
The Handmaid’s Tale é uma série necessária. Em alguns pontos, ela é distópica, mas pode deixar de ser a qualquer momento - em alguns países ela já deixou de ser.
Em um momento, as mulheres podem perder empregos, ter seus cartões bloqueados, serem afastadas de suas filhas, se tornarem completamente dependentes do marido. A série nos mostra as consequências desses acontecimentos. Ela nos mostra que nunca devemos chegar a esse ponto.
Porém, diante dos recentes acontecimentos no Brasil, fica o alerta para nos atentarmos. A nossa realidade pode estar se aproximando cada vez mais de Gilead.





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